Flor de sangue
- katiabonfanti
- 8 de fev. de 2022
- 8 min de leitura
Atualizado: 1 de abr. de 2025
Um conto inspirado na realidade trágica de um povo e na vida de uma mulher que representa tantas outras. Até quando!?

Depois do "engano", Tânia manteve a janela fechada por um longo tempo.
Naquele domingo, depois de retornarem do passeio, Alberto disse à Tânia, sua mãe:
Vou levar a Camile ao Coral da Igreja e já fico por lá. Depois do culto, passo aqui para deixá-la e levo o almoço de amanhã.
Alberto perdera a mulher havia oito meses, num acidente de motocicleta, quando ela atravessava a RS-118 para ir ao trabalho. Ficaram ele e a filha Camile, de nove anos. Nesse período, transitavam entre a casa da mãe e a deles.
Está bem! Vou aguardar, respondeu Tânia, abraçando a neta.
Alberto foi até o portão e retornou com ares de quem havia deixado algo para trás. Beijou Tânia demoradamente. Depois, arrumou a mexa de cabelo encaracolado da mãe: Seu cabelo está mais bonito assim, solto.
Tânia riu. Já escutei que é desleixo deixar o cabelo assim. Mas eu estou gostando dele assim, pela primeira vez.
Os dois desapareceram atrás da Alamandra que formava uma cortina de flores arroxeada sob a cerca alta. Tânia entrou na cozinha ainda imersa na cena que acabara de experienciar junto ao portão. Mexia as panelas, desfocada, ainda sem imaginar o cardápio da marmita. Entretanto, sabia que Alberto se tornara o filho amoroso e responsável que havia sonhado quando soube que teria um menino. Guardava com carinho os momentos que conseguiam passar juntos. Pois a vida é tomada de urgências e os anos escorrem por entre as frestas das tarefas e desgraças.
Alberto trabalhava durante o dia e à noite ia à Universidade. Estava longe de se formar pois, um curso longo, feito a conta gotas pelo pouco dinheiro, leva tempo. Retornava tarde da noite nos dias de aula, duas ou três vezes por semana, que tiravam o sono de Tânia. “Ser filho de gente humilde, ter a pele preta e ser morador da periferia não é fácil. Tem que lutar até pelo direito de passar pela rua em determinadas horas... meu filho é um sobrevivente de 29 anos”, ela pensou.
Alberto era um moço alto, de pele luminosa e olhar sereno. Não nutria o medo na mãe, mas era cauteloso. Não gostava de bares e festas e, depois que perdeu a mulher, passou a frequentar mais a igreja com Camile. Tinha fé!
Tânia decidiu fazer o prato prático e que ele gostava muito: panquecas de carne, temperos verdes e ovos cozidos. As ervas de cheiro suscitavam afetos e avivavam lembranças. Subitamente, lhe retornou à face o calor do beijo recém entregue por Alberto. O peito ficou apertado. Incomodou-se com a estranheza da sensação, povoada de vazio.
“Beijo de filho fica na gente, esquenta. Só de pensar em não tê-lo, dói.” Pensou em calafrios.
Finalizou o almoço de Alberto. Fechou o pote. Daquele momento em diante, se dedicaria à sua criação costumeira, que era também sua fonte de renda e de motivação: o artesanato. Tânia desejava retratar as flores vermelhas que vira no passeio à Serra Gaúcha naquele domingo. Faria toalhas de bandeja para duas clientes e uma para sua mesa da ceia.
Hermes passou meia dúzia de anos acamado, demandando atenção e cuidado. Não cabiam festejos na atmosfera adoecida em que viviam. Completaria, naquela semana, dois anos de falecimento de seu marido. Entretanto, golpe cruel foi a morte de Renata, sua nora, acontecimento inesperado que represava as lágrimas nos poros, pois derramar-se perto da criança que mirava a janela imaginando que a mãe, mesmo morta, poderia retornar, seria um desatino insuportável.
As lembranças estavam afloradas. Sequencias de calafrios indicavam que precisava ir para sua mesa de artesania. Lá, os pensamentos se organizavam e a vida tornava-se leve. Os problemas se minimizavam depois das belas artes.
De janela aberta para o lado da igreja, ouvia o coral. Imaginava escutar a afinação de Camile. Distinguir o timbre era impossível, mas a corujisse de vó permitia. Pensar que a neta cantava e sentia-se melhor depois era o que mais importava. Abriu o baú dos materiais, prensou o pano no bastidor, escolheu os pincéis e sentou-se de costas para a janela. Pintaria ao embalo de Noite feliz.
Por que será que nunca pintei flores vermelhas? Indagou em voz alta.
Dispôs as tintas na mesa. Admirou-as. O pote da rubra estava novo, cheio de tinta. Anunciação. Inauguraria o vermelho sangue. Tânia apreciava pincelar jardins e flores como as rosas, lírios amarelos e hortênsias azuis. Nunca as vermelhas. Intrigada consigo mesma, abriu as tintas. A cor vívida promoveu um abalo nas suas entranhas, manifestando-se por um discreto enjoo. Atribuiu isso ao distanciamento que vinha tendo com o pigmento expressivo da vida. Muitos anos em função de doença, a vida tornara-se opaca. Desafiar-se-ia, queria as flores vermelhas – simbolismo de nascedouro – Natal. Desejava tons vibrantes para a virada e uma entrada de ano sem sobrecargas. Assim que passassem as Festas, transmitiria a Camile os pontos de crochê e de tricô, como fizera sua avó, e, depois as tintas. Pensava que dominar as agulhas eram habilidades para se desenvolver antes de empunhar os pincéis. Heranças familiares valiosas, carregadas de afeto e de persistência. Preocupava-se com o futuro da neta. As mulheres de sua família, em algum momento, ou em muitos deles, “seguravam a casa” com o artesanato.
Artesanato é tudo menos porcariada – como acusava Hermes – confabulava Tânia enquanto pintava as primeiras flores vermelhas. Vagueava os olhos pelo tom marcante que transformava as ranhuras do pano em arranjos sanguíneos pulsantes, silenciosa. Nesse instante, escutou uma rajada de tiros vindos da direção da igreja, experiência nada incomum no seu bairro. Porém, aqueles tiros pareceram muito próximos de casa, tão ruidosos e assustadores que fizeram com que Tânia se levantasse em desassossego e fechasse a janela.
Ah, meu Deus! Quando isso vai acabar?
Retornou à mesa para seguir a pintura de suas flores. Com a rapidez de um piscar de olhos, as flores lhe pareceram duas vertiginosas manchas de sangue, parecendo um coração disforme em jorro. Tânia viu os potes de tinta se moverem e a casa rodar, embora nada tivesse saído do lugar, a não ser os fantasmas que ameaçavam suas noites quando Alberto tinha aula. No mesmo instante em que tudo rodava, seu braço direito enrijeceu: não conseguiu abrir a mão para largar o pincel sobre a mesa. A mancha de sangue, antes flor, tomou o pano de modo assustador. O enjoo surgiu à boca do estômago, logo transformando-se em brasa a queimar seu peito. Um lume incendiário subiu pela garganta carbonizando todos os aromas que perfumavam seus planos.
Alberto... Alberto!
A leveza da vida havia caído abruptamente sobre os espinhos das flores vermelhas, entre a janela e a igreja. Com o braço enrijecido e o coração disparado, abriu a janela e chamou-o, tentando fazê-lo mais forte, mas já sem voz.
Do alto, só viu pessoas correndo nos arredores. Despencou aos saltos para o portão da frente, arrancou a tranca e se lançou sobre os quatro degraus de pedra da pequena escada. Antes de contornar a Alamandra do jardim, vislumbrou no rosto das crianças que subiam, estrada acima, o desespero.
Alberto... Camile! Deus é bom! Deus é bom!
Enquanto todos os fiéis e integrantes do coral se afastavam da igreja, ela descia a rua sem sentir as pernas, apenas o arder suplicante que lhe tomava a garganta. Os olhos ardiam ressecados pela aflição. O cascalho maltratava os chinelos. A mão apertava o pincel embebido na tinta vermelha. Em vai-vem, riscava a lateral do corpo como se fosse uma lâmina afiada, abrindo fendas no pano cinza claro da saia.
Via todos os rostos e não via mais ninguém. Onde estavam os seus? Andou os últimos trinta metros até a porta da igreja. As pontas de pedras entravam pelas plantas dos pés, já descalços, como raízes protuberantes, deixavam pegadas; flores de sangue vivo. Seu corpo estava esmaecendo. Ainda teria força de subir os degraus da igreja, encontrar os dois e se acalmar. A mão endurecida balançava no ritmo de um ponteiro de relógio emperrado, querendo segurar o tempo do beijo, o tempo do até logo, o tempo para o qual parecia não restar tempo.
Onde está Alberto? Camileee!
Com o pranto em suspenso, Tânia entrou na igreja desvalida de anima, aterrada. Antes que pudesse fazer qualquer pergunta ao padre, que velava a cena, baixou o olhar para a Estação Dolorosa, colocada ao chão, bem em frente ao altar: Camile e Alberto, envoltos em um manto rubro, transfigurados em um amalgama dilacerante das próprias forças vitais. O calor ampliava o odor adocicado de jasmim e palmas, emanados dos arranjos do corredor central.
O cheiro fúnebre trazia, envolto, o desespero. O som agudo e incompreensível de dor vinha de Camile, que maculada pelo ensejo trágico, pressionava a face alvejada do pai, ansiando trazê-lo de volta do caminho da finitude. As rajadas de tiros foram todas endereçadas ao corpo de Alberto. As incontáveis perfurações subtraíram a bala o tempo do adeus.
Uma tragédia diante do altar! Três homens entraram com as armas na mão e atiram nele. Eu sinto muito – gaguejou o padre.
Findou ali, no primeiro banco em frente ao nascedouro do Deus menino, o sonho do jovem estudante de Engenharia.
Tânia desejou ir com o filho. Entrou em colapso. Seus olhos escureceram, nada mais havia para ver. Desmontou sobre o corpo do filho e da neta. Não existiriam fios e agulhas para costurar as fendas deixadas por aquele ato vil e violento. Caídos, ligavam-se pela tragicidade e pelo líquido pegajoso que besuntava os corpos e se avolumava pelo corredor a fora. Não havia socorro que restabelecesse a perfuração dos corpos: sucumbiam no subsolo sombrio, onde os sonhos se embotam. A violência conduzia ao porão das tristezas, enterrava a vida, como se fosse morte perambulando. Tânia estava entregue ao sacrifício. Seus ramos floridos e vívido secaram diante das imagens sacras. Quando a polícia chegou, encontrou os três aos pés do padre. Ele em pé, compassivo, em oração.
***
No outro dia, Tânia acordou num quarto branco-gélido. Apesar do calor, seu corpo exalava um suor glacial. Nenhuma coberta retirou a frieza da morte de sua pele. Na cama ao lado, Camile dormia como um anjo, de rostinho sereno e pálido, de quem havia sido golpeada pelo inexplicável. Acordaria no quarto tão gélido quanto o de Tânia, assim que os sedativos deixassem o frio retornar. O despertar era esperado, porém, controlado com calmantes. Teria que ser assim, uma vez que a realidade se apresentava humanamente intolerável. Havia esperança de que o tempo pudesse minimizar a dor e, assim, reduzir as gotas sedantes, em breve. Tânia buscava algum fio de coragem para encarar Camile e dizer que seguiriam sozinhas pela vida. A casa seria habitada pelo vazio até que pudesse ver cor novamente. Sem tintas: vida-morta, morte em vida.
***
Dias depois, Tânia veio a descobrir, pelo investigador, que seu filho foi morto por engano. Fora confundido com um traficante do bairro. Vinte e seis tiros à queima-roupa. “Morte de um filho por engano” é como matar a mãe duas vezes. Uma no dia do crime e outra no dia de saber que foi "por engano". Sofrimento dobrado, desaforo ao quadrado!
O Natal daquele ano não existiu. Tânia fechou a janela para a vida. O engano que levou seu filho abriu o alçapão das trevas. Vivia na porta da delegacia. Precisava de resposta. Nunca recebeu.
"Mortes assim nunca são enganos e balas nunca são perdidas. Encontram sempre um corpo. Nossas vidas também importam doutor", disse Tânia ao delegado.
Os dias se passavam, embrutecidos e doloridos. Apagaram-se as hortênsias, a Alamandra só fazia surgir folhas, nenhuma flor, pelo menos não era capaz de vê-las. E sobre flores vermelhas? Não ousaria se aproximar desse pigmento e de nenhuma outra tinta, por repugnância, sentimento de desgosto. Guardou a caixa de tintas no baú de madeira, junto ao pano manchado de flores e morte. Afivelou com cadeado a esperança de viver em um mundo sem violência. De que valeriam as tintas? Seu braço direito continuava endurecido, sem tato, sem direção. Perdera, também, o amor pelas agulhas, pelas linhas e pelas ervas aromáticas. Cozinhava lentilhas e arroz, temperava com sal. A expressão do rosto no espelho escancarava o declínio da vitalidade: cada mês parecia um ano marcado no órgão mais sensível e profundo do corpo: a pele.
Katia Bonfanti, Psicóloga e escritora
Fonte da imagem: wix/editor/web
Revisado por Rodrigo Fagundes - PUB Editorial

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Texto contundente e cortante. A gente vai lendo e vai apertando o peito, vamos nos envolvendo com a protagonista e antevendo uma tragédia... Parabéns
Ótimo texto , meu abraço e reconhecimento