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Dramas atuais e memórias

Atualizado: 7 de mar. de 2022




Em uma tarde de verão...

Enquanto eu tentava me refugiar em melodias inspiradoras uma música vinha como um fantasma explícito a atordoar meu percurso saudosista. As músicas que ocuparam lugar no repertório do parque, soavam sem trazer um conteúdo que pudesse contribuir com memórias positivas e inspiradoras para a juventude que frequentava, naquele momento, incluindo minha filha de 11 anos e meu filho de 8. Dei-me a analisar. O “chororô” carregado de expressões vulgares e de valor discutível quando amparado no desenvolvimento da cultura, do desenvolvimento da língua portuguesa e especialmente pobre de inspiração para modos de vida que desejamos que nossos filhos sigam orientados. Sabemos que a música sempre retrata a cultura do lugar. Mas, eu não quero acreditar que declinamos tanto. Será que só temos isso, hoje? Mais pessoas sentem esse desgosto diante de repertórios, ou não se importam com o que escutam? Pensei, quase em desespero. Entendo que todas as manifestações artísticas são legítimas, porém, precisam estar adequadas ao ambiente, agregar valor aos que tomam contato com a "obra". Não vi sentido agregador no que eu escutava. E, nos últimos anos tenho me deparado com o mesmo menu vulgar-melodramático em tantos lugares, inclusive no belo parque que recebe novas remessas de juventude durante os verões. Fiquei pensando sobre a influência da música para a atual juventude. Temos que pensar nisso! A música, mais do que outra arte, tem representação neuropsicológica, interface com o controle de impulsos e potencial organizativo. Gerencia uma ligação direta com a afetividade, emoções e motivações. Ou seja, a música é um trunfo poderoso para promover equilíbrio entre os estados psicoemocionais e fisiológicos. Ela é moduladora do humor e capaz de nos levar de um estado a outro - alegria e tristeza. Portanto, investir em uma música que produz serotonina e dopamina (hormônios do humor) faz parte do ser criativo e inteligente.

Enquanto minhas memórias culturais e musicais sofriam o ataque desencorajador e degradante exercido pelo linguajar chulo e de conteúdo insinuante, implícito nas músicas – pouco apropriados para os usuários em diferentes etapas de formação --, chegou um amigo, que o acaso nos fez parente, que compartilhava das mesmas memórias e das mesmas angústias. Nós dois com os filhos n’água e nosso sentimento afundando nas melodias deprimentes.

Tony e eu revisitamos as andanças, sentamos com os velhos tempos, nos amparando nas letras do Rock Nacional, MPB, músicas internacionais, que ainda hoje ocupam as listas de destaque em emissoras que se dedicam a divulgar conteúdos culturais selecionados. Falamos, efusivos, desejosos de encontrar alento em algum ponto da sonoridade dos anos que estão sendo depredados pela “pobreza” de ideias, falta de poesia, descaracterização da língua… Apelos sexualizados, adultização das infâncias… Recordamos as vivencias desde as festinhas de garagem aos dias atuais. O desconforto traduziu-se em planos. Queríamos “salvar” os infantes deste, e do novo ano-tempo, que está sendo forjado nos detalhes – e a música se presta a isso também: formar cidadãos críticos e criativos. Claro que não temos esse poder, mas pelo menos nos indignamos com a realidade e ousamos pensar alternativas. Deixar a juventude escutar, deliberadamente, pobreza poética nas melodias é o mesmo que empurrar nossos filhos para um abismo cultural. Concluímos, eu, Tony e a roda familiar que nos apoiava no recordatório. Para onde vamos? O que eu tenho com isso? Muito. Dedico minha vida a escutar pessoas, famílias e crianças refletindo sobre processos de vida, modos de compreender os fenômenos que nos surpreendem… E pensar “aprendizagem em diferentes contexto”, além de ter sido o tema do meu mestrado, é fundamental para entendermos de onde vem os comportamentos das gerações que nos sucedem. Não por acaso algumas atitudes e comportamentos “surgem” não sabemos de onde. Todo o contato importa! Somos seres de alta complexidade se pensarmos no desenvolvimento psíquico, formação ético-moral e todo o conteúdo oferecido pelo ambiente fará parte do ser em desenvolvimento. Portanto, é ato político e de responsabilidade social cuidarmos de nossos jovens em qualquer contexto. Eu, Tony e todos os que vêm de mãos dadas com longos anos de experiências e exercitam o bom senso nos importamos, sim. Vamos para o novo ano-tempo almejando fazer a diferença. Atentos ao que o ambiente está in-formando ( ou de-formando) os jovens de hoje, cidadãos de amanhã. Futuro de todos nós, mas especialmente de nossos filhos.

Venha, Ano Novo, com mentalidades mais arejadas e menos "adaptadas" a conteúdos deprimentes e repugnantes que insistem em pedir passagem.



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