Desfolhar-se é essencial para novos modos de vir a ser
- katiabonfanti
- 28 de out. de 2021
- 2 min de leitura

Flor-essência
Havia um lugar onde os ipês não floriam. Ninguém queria entender o motivo. Os ipês sabiam da potência da floração nas árvores, mas entendiam que eles eram diferentes, não floresciam. Nem se sentiam dignos de viver tão intensamente aquelas performances. Então, eram incessantes na produção de suas folhas como a única cobertura possível, quase permanente. Um trabalho para servir os moradores. Os ipês não reconheciam ciclos nem estações, nem tempos, nem tinham o desejo das cores. Embotamento. Um dia um homem desconhecido sentou-se à sombra de um dos ipês. O homem ficou ali, encostado ao tronco do ipê. O que fazia o homem encostado, colado ao tronco do ipê? Ninguém sabia responder. Ele ficou imóvel até seu último inspirar. As pessoas se esconderam para não ver.
– Encerramentos são necessários para novos começos, mas há que suportar o fim. Disse o homem.
Os ipês acompanharam cada momento daquele instante íntimo e profundo. Desvendaram-se. Encontraram o Ser enquanto acolhiam o desfalecer do outro. Descobriram a importância de viver cada momento como se fosse infinito e aquele último poderia ser o mais bonito. Encharcaram-se de lições. Engrandeceram.
Alguns dias, depois daquela cena, as pessoas presenciaram algo ainda mais assustador. As folhas de todos os ipês da praça caíam uma atrás da outra, como um chuvisco melancólico e insistente. Os ipês sabiam o que estavam precisando: viver intensamente! As pessoas não. Olhares julgadores logo se lembraram da cena do homem encostado ao tronco do ipê. Teria o homem soprado o seu fim às árvores? Desgraçado a tão boa sombra das tardes? Ainda, quando as folhas acolchoavam o chão, protuberâncias delicadas surgiam nos galhos, aos rebentos, rompendo a casca sem medo de se perder da antiga aparência. A dor imposta pelos rasgos seria apagada diante do que estavam encorajados a fazer nascer. Estavam vestidos de coragem, destemidos e apressados. Haviam perdido tempo demais naquela repetição enfadonha de manter folhas. Existiam para ir além do já experimentado. Libertariam suas almas para o Ser de fato.
O sopro de transformação havia sido pulverizado naqueles troncos. Os ipês, ao sentirem o primeiro vento primaveril, recobraram a memória da existência. Desejosos, acordaram a dádiva das cores. Passavam breves intervalos apagados, verdes e folhosos, porém, aguardando em silêncio a profusão de vida surgir em seus ramos. Aprenderam a se recolher e esperar. Não gastavam exaustivamente suas energias para agradar os moradores com suas aparências sombreadas. No tempo certo, se despiam. Outonavam sem sofrer. Espreitavam a queda da última folha e, meses depois, como se fossem libertar o último suspiro, jorravam cores tingindo os seus galhos nus. De primavera em primavera se desvaliam em quase mortes e se revestiam gloriosos em cores vivas. Cada ipê ansiava pela hora de colocar a graça no que parecia sem graça. Resguardavam-se para aquele suspiro que acreditavam ser o último a fazer valer o resquício de ar, o último inspirar, como fez o homem. O fim da dormência não era o fim, nem o último suspiro, só mais uma primavera a celebrar a vida após uma aparente morte.
Katia Bonfanti, 2020

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Lindo, lindo Katia, expressando a florescência da alma e perfumando nossos dias com esperança e alegria. Majestosos Ipes da tua primavera, ressignificando as estações através dos textos literários de muita inspiração. Poesiando sempre...
Os ipês, são árvores que todos os anos se enamoram com a natureza. Sentem o vento em seus galhos, sorriem aos pássaros, principalmente o Sabiá-Peito-Amarelo , para quem pede um carinho e se encanta com o cantar melodioso. Não é por nada que foi a árvore escolhida como símbolo brasileiro. Parabéns e siga sempre, esse teu dom, em bem escrever