Virando o Jogo: assertividade para além do óbvio
- katiabonfanti
- 23 de mar. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 24 de mar. de 2025

Katia Bonfanti, pscóloga sistêmica
O jogo começou de forma surpreendente, desafiando as expectativas. Isso cria uma tensão não só para quem está em quadra, mas também para quem assiste, criando um clima de incerteza.
O time perdeu coesão após alguns lances que não deram certo, desperdiçaram oportunidades e erraram: primeiro set perdido. No segundo, o mesmo roteiro – as atletas ficaram visivelmente desapontadas, mas se apoiando mutuamente, buscando encontrar o ponto de equilíbrio. Apesar do esforço coletivo, a desconexão ainda era perceptível, e o set escapou novamente.
Então, veio a virada. Era entregar 3x0, ou mudar o padrão do jogo e ganhar. Foi o que aconteceu. Depois de uma pausa estratégica, o time retornou ao terceiro set com mais assertividade. Ajustaram postura, ganharam confiança e abriram rapidamente 10 pontos de vantagem, fechando o set com autoridade.
O quarto set seguiu a mesma energia: domínio sobre a outra equipe. E assim foram para o quinto e decisivo set, um verdadeiro teste mental e físico. O placar seguiu ponto a ponto, alternando lideranças. Mas, nos momentos finais, mantiveram a margem mínima necessária e venceram 3x2. Realidade ou ficção, essa resenha é comum aos jogos em equipe, em qualquer modalidade desportiva. Surpreendentes, tensos e de muita aprendizagem.
Entretanto, o que mudou ao longo do jogo? O talento individual sempre esteve lá, mas o funcionamento da equipe parecia ser menor do que a soma das partes, quando deveria ser o contrário. Por fim, a capacidade de regular o estado mental sob pressão e resgatar a coesão da equipe fez a diferença no resultado.
Eu costumo observar jogos sob duas lentes: as da Neurociência, que explica como o funcionamento cerebral impacta o desempenho e as da Psicologia Sistêmica, que revela a dinâmica da equipe e seus ciclos de energia. Afinal, um atleta é mente e corpo – e a mente é a base tanto da tomada de decisão quanto da execução. Então, o que a ciência nos diz sobre esse tipo de virada? Vamos entender, resumidamente, como times resgatam seu nível de competitividade quando tudo parece desmoronar.
Quando enfrentamos um erro ou frustração o cérebro desvia o controle do córtex pré-frontal (responsável por decisões estratégicas e pensamento crítico) para a amígdala, que dispara uma resposta de estresse. O resultado disso? Reações impulsivas e menos clareza, redução na motivação e coordenação, queda na comunicação e no trabalho em equipe...
Além disso, há uma queda nos níveis de dopamina e serotonina, neurotransmissores essenciais para manter o engajamento e a confiança. O time sente o impacto mental – hesitações, erros repetitivos e frustração; e físico – consaço, menor movimentaçao, reações descoordenadas, desistência do lance...
Mas, como equipes que buscam melhorar desempenho trabalham para evitar que a amígdala assuma o placar? Isso é um grande desafio e deve ser cuidadosamente analisado e iniciar pelo circuito individual pode ser um primeiro caminho: micro-reset mental – pequenos rituais ajudam o cérebro a interromper o ciclo negativo. No jogo, pode ser bater as mãos após um erro, criar um ritual rápido uma respiraçao consciente... E, analisar o circuito sistêmico é tão importante quanto o primeiro: liderança situacional – Em momentos críticos, um bom líder ajusta sua abordagem. Às vezes, a equipe precisa de firmeza, em outras, de acolhimento e reforço positivo. (E a torcida também parece ajudar, se não na recuperação direta do placar, ao menos oferece resposta positiva e encorajamento nos momentos de maior tensão).
O importante é nunca esquecer: ativação da linguagem positiva – O que se diz após um erro importa. Expressões como “segue, vamos em frente” funcionam melhor do que “expressões de desaprovação e palavras desencorajadoras e ríspidas”. Apoiar muda a resposta emocional e mantém o time focado.
Sabemoas que ninguém entra em jogo para perder, mas como "todo jogo é jogado e lambari é pescado", a vitória não vem apenas da intenção, e sim da qualidade da execução, da adaptação sob pressão e da capacidade de sustentar a performance até o fim. Isso vale para atletas aprendizes, atletas profissionais e lideranças desportivas. Na busca pela vitória, não é o talento sozinho que define o resultado, mas a capacidade de se adaptar, manter o foco e executar com assertividade, mesmo quando o jogo desafia a mente e o corpo.
Quando tratamos de atletas aprendizes, especialmente os adolescentes, a chave para o crescimento não está apenas na habilidade técnica ou no talento individual, mas em permitir que a mente amadureça. A neurociência nos ensina que o cérebro do adolescente está em constante processo de plástico neural, ou seja, está sendo moldado a cada erro, a cada esforço.
O “pulo do gato” aqui é promover a autonomia emocional e cognitiva. Não podemos intervir constantemente, corrigindo cada erro, pois isso inibe o desenvolvimento da tomada de decisão independente. De acordo com a teoria da neuroplasticidade, o cérebro cresce e se adapta quando tem espaço para aprender com os próprios erros. A autonomia não é apenas uma escolha, mas uma necessidade essencial para o desenvolvimento do atleta.
Além disso, a liderança de um time de jovens atletas devem ser situacional. Micromanagement ou controle excessivo pode destruir a autoconfiança e limitar a motivação intrínseca. O líder deve ser flexível, ajustando a abordagem dependendo da situação e do desenvolvimento emocional do atleta.
Evitar a falha não é o objetivo. Permitir que o atleta se recupere sozinho de cada erro é a chave para criar resiliência e fortalecer sua autonomia. Isso vai desde a interpretação das falhas até a aplicação de estratégias para voltar a jogar com concentração e foco. Ao não tratar o erro como uma catástrofe, o atleta aprende a lidar com a adversidade e a crescer mentalmente.
O que vemos, e o que a teoria confirma, é que o que uma equipe faz no primeiro minuto, e o modo como se reorganiza após um erro, determina se ela se recupera ou desmorona.
Como se diz por aí, um jogo de cada vez. No fim, é a mente que vira o jogo, é ela que conduz a vitória.
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