A CASA TRESPASSADA PELAS REDES
- katiabonfanti
- 23 de set. de 2021
- 7 min de leitura
Desde que a humanidade decidiu deixar de ser nômade para ter um lugar fixo e seguro para habitar, a reunião de diferentes materiais foi dando forma a uma espécie de redoma para guardar os pertences e também para se abrigar das intempéries, surgindo assim as casas, os lares das famílias. Com o passar do tempo, essas redomas foram aprimoradas a ponto de receberem diversas divisões e denominações de acordo com as necessidades criadas pelas pessoas. As casas foram subdivididas em cômodos para garantir alguma privacidade dentro da convivência grupal e, também, foram ganhando características próprias, regionais, demarcando a cultura dos habitantes.
No Sul do Brasil, por exemplo, em virtude do inverno prolongado, as sacadas abertas com churrasqueiras são adaptadas para sacadas fechadas garantindo o espaço de convivência e preparação de alimentos típicos do Sul, mesmo nos dias de temperatura muito baixa.
Um dia desses, no café da manhã, meu marido, que gosta de observar as nuances de Marketing do Consumidor, e ensina sobre o tema na Universidade, fez um comentário sobre a oferta de imóveis. E disse: – Logo vamos ver o destaque de venda dos corretores de imóveis mudarem de espaço gourmet para espaço home office. É isso mesmo, temos anúncios de imóveis destacando espaço biblioteca e escritórios. A pandemia também imprime sua força e faz suas exigências nos imóveis. As nossas casas ampliaram fortemente os espaços de trabalho. E não só o trabalho formal entrou de vez na casa das pessoas, como o trabalho diário se intensificou.
As cozinhas nunca foram tão utilizadas e as mesas tão frequentadas para as refeições em família. Quem não cozinha em casa também consegue manter a cozinha animada, e a rua também, com as frequentes buzinas das tele entregas. Por falar nisto, os entregadores passaram a ser uma possibilidade de conversar com alguém presencialmente e se informar sobre as notícias das redondezas. Viramos amigos do moto boy do mercadinho do bairro e até o contratamos para fazer postagens nos Correios. Ele está cuidadoso e muito contente em trabalhar depois de ficar oito meses desempregado. As crises trazem ondas de desempregos e de novos empregos. Os entregadores são exemplos disto. Para quem os recebe é muito bom ver alguém do lado de fora do portão e trocar meia dúzia de palavras, saber como anda o centro da cidade, mesmo conversando há dois metros de distância, com máscaras e com o álcool em gel a mão. Cuidar de si e dos outros é um alento. Sei que nem todas as pessoas puderam fazer seu trabalho de casa, mas como nós tivemos esta possibilidade, optamos por nos manter em casa.
A cozinha é um lugar de encontros, sem sombra de dúvida. A nossa fervilha em gostosuras e avoluma montanha de pratos e panelas para lavar a cada receita. Coisa incrível como cozinhar dá trabalho e, algumas vezes, diversão!
Cozinhando nas nossas cozinhas, ou só desembalando e esquentando os alimentos, podemos desfrutar da convivência na volta da mesa e dos planos para o próximo cardápio, as próximas receitas. Se nos apertamos na rotina dos preparos, corremos para o computador, os canais no YouTube e agora as lives de preparo de alimentos estão dando um up no cardápio. Claro que a cozinha experimental e ocasional é empolgante, mas quando se torna rotina fica uma tarefa a mais na dinâmica familiar. Embora eu goste de cozinhar, o cardápio virou obrigação e aí já me peguei sem imaginação nas panelas. Cozinhar ficou em meio às outras tarefas e isso pode render um prato de sabor acre. O perfume do manjericão e do alecrim, às vezes, se mascaram no cheiro do arroz sapecado. Nada grave. Incrementa-se com o saboroso omelete de tomate seco, servido com rúculas frescas da hortinha, regada a azeite de oliva e torradinhas. Assim, tudo acaba bem saborizado e o arroz, sobrado. Na sequência já estamos olhando para a pilha de louça para lavar, pensando em reservar 5 minutos para tomar o cafezinho antes de entrar na reunião da tarde. Assim, vamos vivendo os dias e imaginando cardápios práticos para o dia seguinte.
Se prestarmos atenção nas lives, de famosos e de gente como a gente, preparando pratos simples e rápidos, gostosos e fartos, inusitados e convencionais, tudo funciona em prol de colocar a casa a serviço de si e dos que esperam uma dica quente e gostosa para atravessar a pandemia. Mas não é só isso. Além de fornecerem dicas, os chefes de plantão também estão em busca de interação com pessoas e alívio da sensação de clausura que, por vezes, a casa parece exercer sobre todos.
E tem o lado sombrio da cozinha. A cozinha de quem não tem os ingredientes para cozinhar e precisa se expor para consegui-los. Vimos aumentar em nossas portas a chegada de pessoas, quando o lema é "fique em casa", buscando alimentos. Este lado perverso do sistema capitalista é o mais duro dos distanciamentos sociais. Promove o distanciamento físico, o distanciamento de possibilidades, de acessos e de direitos básicos. A distância econômico-social entre a população tem receitas transgeracionais e tutorias bem articuladas para preparar e manter o prato da fome.
Antes das redes atravessarem por completo as paredes das casas conseguíamos nos inscrever em alguns eventos, observando horários, tempo de deslocamento e custos. Sofríamos quando não nos era possível participar de algum que ocorresse distante ou em horário que não era compatível com o nosso. Agora estamos sofrendo ao contrário. É tanta oferta que os laptops e, especialmente, os celulares viraram entes ameaçadores e persecutórios. Assombram-nos com tantas possibilidades e sobreposição de conteúdos que julgamos “interessantíssimos” e imperdíveis. Essa aparente possibilidade de acompanhar tudo de dentro de casa, na palma da mão, e, às vezes, em eventos simultâneos, gera sensação de frustração ainda maior do que quando não conseguíamos aproveitar um evento presencial. É difícil admitir que estamos mais ligados e ocupados, mas é a realidade.
Você já teve vontade de silenciar todos os grupos e ainda esconder o celular em algum lugar onde ele não pudesse lhe ver? Escutei a narrativa de uma jovem que se dizia uma “viciada” em interações virtuais e que em meio à pandemia teve vontade de trancafiar o celular na gaveta para que “ele” não a encontrasse. Parece piada, mas as avalanches de acontecimentos virtuais também geram sofrimento e afetam nossa saúde mental.
Quando o equipamento eletrônico começa a perseguir e chamar por voz o usuário é um sinal de que a dependência descrita no DSM V vai ganhar adendos. Sentimos que a conexão permanente à internet produz tanto sintomas psicológicos e fisiológicos, pela vontade excessiva de uso, quanto pela vontade de fugir do excesso. Se suprimir o uso causava sintomas de abstinência, agora a pandemia nos afetou na contramão, fazendo com que muitos de nós sonhem em se abster para sentir alívio e sossego.
Que saudade do presencial, quando o virtual era pura diversão. Os compromissos virtuais têm perseguido a todos nós. Até enquanto dormimos, eles não param de enviar alertas. Melhor desligar as redes. Escutar a voz de alguém é reconfortante. Ligue. Por outro lado, evitamos engarrafamentos e, ilusoriamente, acreditamos que vai sobrar o tempo do deslocamento. Doce ilusão. Esquecemos do horário para o autocuidado na agenda? Muitas vezes sim.
Temos que relembrar que o dia, continua tendo 24 h e um terço deste tempo deveria ser usado para dormir. As outras 16 h são aquelas que escorrem pelo relógio. Sendo que oito delas acreditamos que são consumidas pelo trabalho formal e as outras oito são aquelas que ninguém encontra ao certo onde foram parar. Nossas horas de descanso ou de atividades pessoais são as mais ameaçadas diante das demandas de trabalho e família e temos que resistir e “ficar em casa” em meio a tudo isto e sem tempo para nós. Alguns homens não vão gostar de ler isso que vou escrever, mas, se historicamente as mulheres já faziam duplas jornadas, agora estão literalmente com a casa, o trabalho e a escola dos filhos nas costas. Em alguns grupos de trabalho discutimos sobre este papel da mulher e especialmente sobre esta inclinação a ocupar o lugar de incansável, ao mesmo tempo em que vive atropelada pelas metas que coloca para si mesma. Precisamos pensar melhor sobre isto?
O volume de tarefas domésticas e compromissos virtuais, para as que mantêm home office tem promovido exaustão e levado milhares de mulheres a piores condições de saúde. Já vimos estudos aludindo a uma avalanche de adoecimento psicológico nas pessoas de modo geral. Outros estudos dizendo que, nos primeiros meses, os sintomas aumentaram mas depois estabilizaram não configurando novos diagnósticos. Vimos de tudo. Tem pesquisa para explicar quase tudo. Mas, a questão é que somos seres de relação social e apreciamos conversar, se juntar em bandos, rir, viajar e tudo isso está bem complicado de fazer. Enquanto ainda não é possível, me desdobro entre as demandas da minha casa que divido gentilmente com meu marido e tento usar meu pouco tempo livre para escrever, brincar com meus filhos e conversar por vídeo com familiares e amigos. Além disto, tenho as plantas que me aguardam ansiosas no jardim... uma hora chego lá!
Que ironia, ser solicitado para “ficar em casa” e não ter tempo de ficar com a casa, com as plantas e com tempo para o ócio, tão recomendado para restabelecer o bem-estar. Ficar em casa agora tem outro sentido. Cada um precisará dar o limite nas tarefas para manter sua saúde mental. A criação, mesmo que seja inventar espaços de não fazer nada é muito importante para a manutenção do bem-estar especialmente enquanto for necessário o “fique em casa”, sempre que possível. As saídas podem ocorrer desde que sejam seguidas as normas sanitárias.
Pois bem, o apelo mundial do “fique em casa” não é um convite fácil e nem simples de fazer. Tem quem pode ficar em casa e não fica porque não consegue entender que fazê-lo é contribuir com o todo. Há quem, de fato, tem que sair de casa para garantir os serviços essenciais à população e muitos destes gostariam de poder ficar.
De qualquer modo, todos já devem ter entendido, e eu quero acreditar que sim, que ficar em casa, sempre que possível, foi o modo mais eficaz que os estudos produzidos pelas comunidades científicas mundiais apontaram como medida urgente e eficaz de combate ao vírus. Com esta medida de distanciamento e higiene contribuímos com a saúde pública reduzindo a circulação do vírus que superlota os hospitais e desfalca famílias. Sobre ficar e sobre sair já vimos e ouvimos de tudo. Vale o bom senso de cada um e vale muito a capacidade de entender como funciona a contensão.
Ficar em casa, ao invés de divagar sobre poções mágicas que previnem e curam, é o melhor meio de garantirmos menos mortos na nossa população, na qual se incluem nossos familiares, amigos e até nós mesmos. É assustador! Precisamos ver o “bicho” bem pertinho para acreditar?!
Até agora o que sabemos é que chá de capim santo cura tanto quanto outras drogas que ainda não se mostraram eficazes para eliminar a Covid 19. Fique atento e leia estudos científicos antes de compartilhar achados pela ciência webiana, que são testados e comprovados por quem não aprecia ler além de um parágrafo e, muito menos, consegue acompanhar processos científicos. Lembremos, mitos e pílulas mágicas são como o pó de pirlimpimpim.

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