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Breves momentos, duradouras memórias

Atualizado: 8 de out. de 2024





Por Katia Bonfanti

Nos mercados, gentes, produtos e memórias dançam entre as bancas. Cada cor, cada aroma, traz uma nota, um pedaço de vida que se revela em detalhes. À medida que caminho, encontro rostos e ecos de um passado que se entrelaçam nas calçadas.


Nos labirintos do Mercado da Vila, vozes diversas sussurram pretéritos imperfeitos, falas não finalizadas, memórias de esquecimentos ainda a pulsar nos olhos. Mãos tecem gestos, revelam o que se esvai, o que se espera, o que se procura esquecer... o que se quer comer...


O som de uma conversa próxima mistura-se com o barulho das frutas caindo nas caixas. — Ainda ontem era a Festa do Mar a fechar o verão — disse o homem, ao lado da mulher com vestido azul estampado de tulipas vermelhas, a escolher laranjas frescas do Algarve. O cheiro doce das laranjas espalha-se no ar, enquanto ela sorri com serenidade e responde: — Logo vem o frio... — e, com um leve suspiro, completou: — Já está! Vai passar…, esquece. — O verão vem e vai... No inverno, tem-se caldo verde e vinho. — Ora se tem, ora se perde, ora se encontra… — disse a dona do chapéu cor de amarílis, à amiga que buscava um tempero exótico, mexendo em frascos de especiarias.— O que não encontrarmos aqui, não há em lugar algum!


E assim, foram-se, sem adeus, recolocando o chapéu, dançando à sombra da esplanada. À medida que se afastam, o aroma de lemon pepper permaneceu no ar, misturando-se ao cheiro fresco dos tomates, apertados por outra mulher, de branco.

Ela olha para o painel luminoso onde o Fado pisca em luzes vibrantes. Um suspiro leve escapa enquanto franze o rosto, perdida num fio de memória: — Do que me lembro com esforço, o Fado era mais vibrante. Meu pai tocava viola, e eu, espreitando os seus soluços disfarçados. Mas ele se foi, levando consigo os dedos afinados e o olhar de vagar. Agora, como saber se o Fado ainda toca o meu coração? A memória da alegria fechou-se, ou não quer deixar-se lembrar? Foi-se o Fado, foi-se o meu pai, com o seu fardo de saudade. O pranto deitou-se em tudo…Agora, só a derradeira nota do Fado, eterno e choroso, tão sem som, assim…Fiquei.


No ar, misturam-se os ecos do Fado e o perfume das frutas. Do outro lado da banca, uma amiga de dedos longos suspira, enquanto remexe as ameixas em caixas de madeira.— O que sei — disse ela, com um toque de nostalgia — é que eu adorava subir à ameixeira, mas cá não há. Agora, tudo vem à cidade, as ameixas nas caixas, e eu aqui, remexendo o perfume da infância. Outro cheiro fresco misturava-se com o doce das lembranças, como se o tempo pudesse ser sentido nas mãos.

É do passado que trazemos nosso saber - ser, neste futuro incerto que se desdobra...


Vamos deixar fluir as memórias que o Mercado descortina. Tocar nas laranjas, guardar o agora, guardar o cheiro dos figos e damascos, para quando o tempo se for…Apreciar as cerejas, como à mesa de domingo, esbarrar na alfazema, perfumar, alçar voos para lugar algum, trazer à flor da pele as alegrias — texturas pêssegas da nossa história. Algumas, esquecer, esquecer, esquecer…pois é preciso, para, em tal momento, tropeçar nas perdidas e surpreender-nos.

Porque breves momentos semeiam memórias, quem sabe cá ou lá. Pois, a vida completa-se nos instantes, sempre e afora. "Bora" para a melhor hora…a de sentar-se à mesa, a degustar, na esplanada do Mercado. Sentir o Norte a visitar Cascais, atravessar o mar, chegar ao Brasil, sem sair do lugar...


— Oh, Pedro, tira um café... de altas notas da antiga Terra da Garoa ou será café das Minas …  enquanto a pressão preenche a chávena com puro sabor e crema, vamos esperar a Barcha servir o pastel de bacalhau — e tem b-a-c-a-l-h-a-u, viu? — nos Salgados do Fundão.

No Mercado, tradição e criatividade convivem em harmonia. Desconhecidos e ou amigos passam para um olá!

Lá, os sabores de sempre encontram novas histórias, como a criação do pastel de cereja. Um casamento inusitado. Uma verdadeira ode ao Romeu e Julieta, só que reinventado  — Coisas do Fundão.

Por fim, entre cocos e laranjas, cafés intensos e pastelarias, os passeios tornam-se uma experiência, onde o clássico se renova, a tradição ganha vida e nossas memórias são geradas com um toque de poesia.


Viva, viva o Mercado em cada dia.










 





 
 
 

2 comentários


Rosangela Paola
Rosangela Paola
09 de out. de 2024

Querida Kátia


Seu texto me tocou profundamente. Você conseguiu transformar o simples ato de caminhar pelo mercado em uma poesia cheia de vida, cheiros e memórias. Fiquei encantada com a forma como descreve as histórias que se encontram nas bancas, nas pessoas, nas conversas. É como se cada palavra sua trouxesse uma lembrança à tona, uma emoção escondida.


Obrigada por compartilhar essa beleza!


Um abraço cheio de carinho,

Rosângela

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katiabonfanti
katiabonfanti
09 de out. de 2024
Respondendo a

Obrigada, Rosângela. Um passeio breve pode ser uma memória duradoura no tempo. Aprecio momentos cotidianos e banais, são eles que tornam nosso dia ainda mais interessante. Na observação do que há em nossa volta, descobrimos sobre quem somos e o que nos interessa. A mim interessa a humanidade pulsante. Aquela que transborda mesmo quando se está a escolher laranjas e ameixas... Bora viver cada instante como se fosse infinito....e tomar um bom café!!!Bjao

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