top of page

Um dia nada qualquer

Atualizado: 12 de mar. de 2022


Na vastidão do Planeta,

a América,

no extremo do país continental,

o Sul,

em seu seios uma serra trespassada de história,

sobre ela,

vinhedos,

e, embaixo deles, o domingo inteiro,

entre o Planeta e o vinhedo,

balançando o passado em aroma,

repouso o olhar.

(Habitar, Katia Bonfanti, 2022)


Imagem: Vinhedo da família Giordani - Vale dos Vinhedos, Bento Gonçalves, RS.

Dia ensolarado no Vale da Serra, início de tudo. Ambiente vivo, cartografado pelo verde das matas, onde as falas se interpõem com as mãos, profusão da linguagem dialetizada. Mistura da italianidade com o sulista brasileiro, aposta que deu certo, mas não sem antes de render muito trabalho. A abertura do país para os italianos tinha propósitos: povoar vazios na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul e incrementar a produção de alimentos para a população. Os italianos que sofriam com guerras, crises econômicas e a fome, que assolava até os interstícios da alma dos agricultores italianos, viram a possibilidade de também preencher os seus vazios no solo brasileiro, especialmente endereçados ao Sul com terras agrícolas. Navegaram em busca della fortuna (sorte). Comporiam na América as primeiras Colônias Imperiais, por volta dos anos 1870. Trazer à luz essa trajetória é reverenciar a herança cultural que é a alma de tantas cidades do Rio Grande do Sul e de outros estados do Brasil.

A Serra Gaúcha foi o atracadouro de sonhos de famílias recém desembarcadas. O encontro com a terra íngreme, com o desconhecido, a exigência extrema da força do lavoro e para os solteiros, o encontro com o amor. Milhares de italianos importaram as tradições para as terras sulistas. Povoaram as Colônias com suas famílias numerosas, apoiadas na fé religiosa. Trabalhadores incansáveis, fizeram do solo de pedregulho la vita fortunata.

Há quase um século e meio as famílias de descendentes vêm traduzindo sonhos e familiaridade com a pátria de origem. Cultuamos e desfrutamos desses aromas transgeracionais com eles. Vemos na Serra gaúcha uma cultura própria, fortalecida pela língua criada na interação: o talian. Ao entrarmos nas cidades com alma italiana, percebemos a tradição reeditada pela comida, pelos costumes e pela religiosidade. Adoramos as festas, em especial a vindima – a festa da colheita, onde o trabalho vem na medida da gratitude e do gozo. Onde os perfumes reconectam com a vida naquele lugar do sem-fim entre o planeta e a plantação. Os parreirais são terraços de esperança, frutificam e adoçam os imaginários dos que vivenciam o sem-fim da alma da cultura. Ao pegar o cesto de vime, dois continentes se ligam. Entre eles as uvas de todos os sabores pendem sobre os olhares perplexos. Apagam o ontem e se lançam ao instante único do agora. Momento vívido da cultura do outro forjado na própria história. Êxtase é a emoção da colheita. Compartilhamento de si com o entorno. Minha avó dizia que a vindima suscitava o amor. Estava baseada no aumento das famílias nove meses depois, mas isso é parte do anedotário dela. Mas, pensando bem, faz muito sentido sentir-se mais vivo, melhorar o estado de humor quando estamos num ambiente exuberante e festivo, então, não precisamos ir muito longe nas análises para pensar que sim, a colheita é a festa do amor.

Anedotas ou não, a cultura reproduz histórias que guardamos no coração e essas e outras reforçam a ideia de que os italianos migravam nutrindo o amor à sua pátria, embora fossem filhos órfãos. Para preencher os vazio, estampavam no entorno o modo de vida e os costumes típicos de suas regiões de origem. Encurtavam distâncias afetivas e revisitavam a memórias dos seus, trabalhando, rezando, festejando e amando. Adaptados a viver em pequenos espaços de terra aplicaram o conhecimento a organizar os talhões, focando nas diferentes culturas: nas partes altas e pedreiras os parreirais, nas poucas baixadas férteis os trigais, e nos entremeios as ervilhas e o milharal, afinal a polenta é essencial. Iniciavam no nível do chão e a partir dele cresciam. O que havia de certo era a plantação. A colheita era um tempo de espera e sustento. Com as estrelas iniciavam a labuta e com elas retornavam.

Sem a coragem e o lavoro dos nossos antepassados, hoje não estaríamos aqui sendo acarinhados pela vista das plantações. Apesar da seca, a festa da colheita está garantida. Grupos andam sob o lençol verdejante aspirando o frescor, nesse fevereiro escaldante. É fato: frescor é algo que vai além da sensação térmica. Frescor é a leveza que se pode sentir apesar do calor. É a alegria do encontro com as raízes. Encontrar-se com o feito, o construído ao longo de gerações que descendem de migrantes. Descendentes são guardiões da cultura, da língua e da tradição. Conhecer e valorizar as origens nos dá uma identidade cultural e a possibilidade de compreensão das transformações da região. Viajamos para conhecer diferentes culturas e experimentar outros sabores. As transmissões culturais são legítimas e habitam o humano mesmo quando a instrução formal não existe. A cultura vai além do que a palavra sozinha é capaz de dizer. O vinho é um compartilhamento cultural que mesmo quem não aprecia conhece seu valor. A experiência da cultura se propaga através dos sabores, dos gestos, dos aromas e de tudo o que compõe o conjunto de “fazeres” de um povo. O vinho ainda tem o poder de transcender, de ligar um ponto a outro, assim como o cesto de vime cheio de aromas violáceos.

Quantos dos refugiados, nossos avós, bisavós, imaginariam que a migração feita por escolha, em meio ao desgosto, seria coroada na história do novo país? Que a cultura italiana se afirmaria com identidade própria nos diversos estados. Especialmente no Sul vemos cidades polarizando encontros, promovendo o turismo local e nacional. Pessoas em busca de experimentação de sabores culturais típicos e de encontrar consigo mesmas através do que é próprio do outro, o desconhecido. Tornar quem somos passa por um processo de nos enxergar além das fronteiras finas da pele, integrar o estrangeiro oculto em si, a cultura do outro. Mudar-se, redesenhar-se a cada interação. Os italianos também passaram por isso quando chegaram ao sul, aprenderam a geografia, revisaram a cultura inteira, a língua, porém, sem perder os matizes dos costumes, do idioma, da gestualidades e a fé arrebatadora.

Sabemos que os gigantes que iniciaram a história da imigração italiana no RS findaram seu tempo de existência, porém seus legados permanecem vívidos. Repousa sob o teto perfumado dos parreirais o lustro dos antepassados. Essa imanência transforma os passos de quem pisa naquele solo de história. Os olhares se convertem embaixo de um parreiral. Cá estamos a espiar o azul, contornado pelas bordas rendadas das folhas das vitáceas. É mesmo como voar de um continente a outro no misterioso sem-fim. Lá tremulam as suntuosas parreiras, adornadas de pendentes e aromas. Plantadas em fileiras estendem suas ramas o quanto podem, e nelas explodem seus cachos numerosos reverenciando a fortuna e a gratidão à terra prometida. Não havia ouro pendurado nas árvores quando chegaram, mas o fizeram surgir.

Os primeiros que chegaram ao longínquo Sul foram recebidos pelas matas verdes, animais selvagens, habitantes do solo pedregoso, nada mais. Haveria descontentes, mas para quem nunca desiste, e é valente, toda a encosta de pedregulho revelará no futuro, o próprio orgulho. O plano se fez realidade e as marcas dos desbravadores seguem nas gerações contemporâneas. O ouro verde-arroxeado pende em grumos suculentos e adocicados, uma pedida para embeber-se da experiência cultural. Os italianos, a partir da experiência europeia, engarrafaram o ouro. O vinho corre o mundo com selos de procedência e qualidade. Desafiantes, investiram no borbulhante – O espumante. Ele faz frente à França e seu Champagne e à própria terra mãe com seu Prosecco. Forjaram há mais de um século a bandeira da fortuna - que não quer dizer riqueza, mas sim, de fazer a sorte. E no quesito sorte, entrecruzam trabalho com perseverança e dedicação à terra.

Os ítalo-brasileiros que preservaram a tradição das colheitas chegaram no tempo da globalização com possibilidade de ver muito além dos Vales e das Serras, elevaram a produção vitivinícola a escalas de distribuição em diversos pontos do planeta. Entretanto, crescer exige revisar constantemente o planejamento e o meio de sustento da cultura. Nesse aspecto surge o grande desafio às novas gerações: empreender em harmonia com o ambiente. Os antepassados planejavam, mas não diante de tanta urgência planetária. Agora é necessário rever o plano e preservar mais do que tudo. De que valeria o desenvolvimento ao preço da finitude do entorno ou da própria cultura? Somente o cuidado e o respeito pelo cultivo alinhado às boas práticas e a manutenção dos valores culturais estenderão a fortuna aos que virão. Foi sob a égide da preservação que a tradição sobreviveu até aqui.

Se não houver mais fachadas históricas, se a produção artesanal for substituída completamente pela industrial, se os espaços perderem as características e a vitalidade ambiental, se enfraquecer a alegria do encontro e as festividades...ou quando a língua for deixada morrer e os costumes perderem o valor, a cultura corre o risco de perder sua identidade. Deixar morrer a cultura de um povo é negar a ancestralidade para as futuras gerações. É ter de volta o vazio de modo aterrador.

Todas as culturas importam, aqui destaco a italiana por estarmos comemorando mais de cem anos de história. Reafirmar os valores culturais é papel de todos que descendem de uma determinada cultura, pois é o que reside no mais profundo de nosso ser. Não temos como não a levarmos. Somos produtos perfeitos de nossa própria cultura. Os valores culturais ligam as pessoas aos seus ancestrais, conectam sentidos e afetos. A italianidade que vive em mim me torna o que sou, a partir das relações inter- transculturais. Pessoas de outras culturas, ao visitar as cidades colonizadas por essa alma “estrangeira” será, por instantes – marcantes, povoadas por inspiradores vinhedos, abrigado pelos sonhos e a ancestralidades do desconhecido. Acontecimentos próprios do encontro com a trajetória do outro. Quem é o outro? Como ele vive? Quem eu sou para ele?... Viva as trocas culturais em um dia nada qualquer, no frescor dos parreirais da Serra Gaúcha. Viva a italianidade que habita em todos nós, filhos, netos e bisnetos da cultura amistosa, falante, barulhenta, incansável, rezadeira, e que ama infinitamente toda gente.


E a sua identidade cultural ? Inspire-se!



Arquivo família Bonfanti


Na sequência... uma história que iniciou com a chegada do imigrante Roberto Bonfanti, meu bisavô, à Serra Gaúcha em outubro de 1912, permaneceu até 1931, desenvolvendo atividade na queijaria que inaugurou na região de Bento Gonçalves. Depois, interessado em produzir farinha e energia elétrica, migrou para outras águas ao norte do RS.


Algumas fotos abaixo incluem a primeira represa na Serra Gaúcha, em Guaporé, 1920, retrato de Roberto Bonfanti e Maria Letícia Chini Bonfanti. Casarões de Bento Gonçalves e Garibaldi. O moinho, a igrejinha construídos entre 1931 e 1937 no Norte do estado, interior de Constantina, RS. A mudança teve o objetivo de encontrar, no Rio Lajeado Grande, água capaz de produzir energia elétrica para o casarão e fazer funcionar o moinho. Sonho que deu certo e iluminou em 1938 o pequeno vale Bonfanti.


E, por fim, entre passado e presente, pulsa a herança da escrita como meio de transmitir afetos, manter os costumes e reforçar a identidade cultural.


Passado e presente, muitas lembranças e aromas...

Crédito da colagem: Verônica Sawariz

Créditos e direito de imagem: foto com alunos : Verônica Sawariz

Demais imagens, arquivo pessoal.


* Comente ao final da página do blog. Vou adorar ler! Um abraço!

 
 
 

3 comentários


luizctaraujo
luizctaraujo
20 de mar. de 2022

Toda vez que leio algo de Kátia Bonfanti me deparo com a sensibilidade, com a valorização das culturas e da mãe Terra. Aqui ela lembra, apropriadamente que o descendente, como ela, deverá ser sempre um guardião de suas raízes.

Curtir

Ademar Francio da Fontoura
Ademar Francio da Fontoura
10 de mar. de 2022

Ótima escrita, resgate, detalhes.

Curtir

ALice Bonfanti Matos
ALice Bonfanti Matos
07 de mar. de 2022

Que orgulho mãe... te amo muito💜

Curtir
bottom of page