Sobre migrar com a mala e a coragem para algum lugar... Sentimentos afloram.
- katiabonfanti
- 23 de set. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 1 de dez. de 2024

Katia Bonfanti
Antes que os filetes de suor frio cruzassem as escápulas e se perdessem pela cintura, a consciência o resgatou, puxando-o do abismo como se emergisse de um pesadelo viscoso. As mãos trêmulas buscaram a camisa empapada, tentando conter o sal que brotava do medo. O chamado para o embarque irrompeu no ar pesado, partindo-o como um raio. Era o início da travessia. Ele agarrou as alças de couro das malas, que continham não apenas seus pertences, mas estilhaços da vida que ele deixava para trás. Subiu a rampa lentamente, as pernas mal sustentando o corpo oco, enquanto a escadaria do Bologna parecia querer engoli-lo.
A cabine era pequena, abafada, impregnada de um cheiro de óleo e madeira velha, mesclado ao salitre que parecia surgir das paredes. No catre estreito, ele sentou diante das malas como quem encara espelhos deformados. Havia roupas, a gaita muda, e um punhado de fotografias dobradas com cuidado obsessivo. Mas havia também algo invisível: a bagagem da guerra, o peso das memórias lúgubres, das dores ainda vivas.
O vazio atravessava o peito como uma lâmina silenciosa. Roberto tentou buscar consolo no teto encardido da cabine, mas tudo o que encontrou foram as próprias cicatrizes. Cada respiração parecia carregar a poeira do passado. Sua gaita, abandonada no canto da mala, era um símbolo do silêncio que o dominava.
O cetim do forro parecia acolher melhor o instrumento do que suas mãos, agora incapazes de extrair qualquer som.
O gosto do sangue nos lábios o trouxe de volta ao presente. A maresia ressecava a pele e insistia em abrir pequenas rachaduras na boca, onde o sal ardia como lembrança de feridas antigas. Tentou se distrair com o movimento das ondas, mas o cheiro da cabine continuava a envolvê-lo, sufocando como um lençol grosso demais.
No jantar, caminhou hesitante até o refeitório. O ambiente cheirava a pão amanhecido, cebolas cozidas e algo indefinido que remetia à gordura antiga. Sentou-se entre outros rostos perdidos, todos compartilhando o mesmo fardo de saudades e expectativas. No prato, uma sopa rala com pedaços flutuantes de batata e cenoura, acompanhada de um pão áspero e seco, que ao toque esfarelava. A primeira colherada trouxe um misto de conforto e desgosto. O caldo salgado parecia amplificar o gosto de sangue em sua boca, lembrando-o que ele ainda estava ferido, por dentro e por fora.
O pão, por mais simples que fosse, tinha algo de primordial. Mastigá-lo era como mastigar memórias, cada pedaço um retorno involuntário às refeições apressadas de outros tempos, antes que a guerra rasgasse sua vida. Ao seu lado, um homem mastigava em silêncio, os olhos fixos no fundo do prato como quem busca respostas. Havia algo nos gestos dele que espelhava os próprios de Roberto.
Após o jantar, a caminhada de volta à cabine trouxe uma estranha sensação de alívio. A brisa noturna, ainda que fria, parecia carregada de algo mais leve, algo que ele mal conseguia identificar. O mar, inquieto, batia contra o casco do navio, e ele sentia cada impacto reverberar em seu corpo.
Na cabine, a madeira rangia sob os pés, e o cheiro parecia mais intenso do que antes, como se o navio o testasse, provocando seus limites. Sentado novamente no catre, observou as malas com uma nova percepção. Cada objeto carregava uma história, e cada história pesava. Talvez ele nunca pudesse deixar aquilo para trás, mas ali, em meio ao som do mar e ao cheiro penetrante de óleo, percebeu que o peso era parte de quem ele era agora.
O gosto do sangue ainda persistia nos lábios, mas junto dele havia algo mais: um gosto de pão, de mar, de sal. A mistura era ambígua, como tudo ao seu redor. Roberto, pela primeira vez desde que embarcara, sentiu que talvez pudesse suportar. Não vencer, nem esquecer, mas seguir. O mar parecia prometer que, em sua vastidão, haveria espaço para todas as dores e talvez até para um novo começo.

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Katia, tua escrita nos remete para um universo paralelo. Teus personagens transitam pelo nosso imaginário e pelo nosso real. Louca para ler esta saga! Tenho muita admiração pelo teu trabalho.
Nádia Bandeira