Sabia (á) - vida
- katiabonfanti
- 18 de dez. de 2022
- 4 min de leitura
Atualizado: 7 de jun. de 2023

E sobre o repouso eterno da ave surge a rosa da cor da plumagem do peito de Adrio. Eis que a força depositada na terra é mais forte do que a genética da flor. Filha de roseira cor de rosa, rende-se ao encanto-matiz do Sabiá madrugueiro. A rosa expande suas pétalas imitando o peito do cantador. Logo abaixo, na haste da suave alaranjada, balança a pluma de uma ave. Surge leve, porém arrebatadora para efeito de emblema, ou lápide – aqui canta o sabiá. E ainda, faz saber que a partida de Adrio passa a ser meio, o quintal passa a ser cheio e o coração alegra-se em ver que a terra ao consumir o canto resplandece a flor.
Adrio faz parte do meu quintal, amor lido nas entrelinhas da vida. Por onde quer que eu ande, meu quintal vai comigo. Não falo de um chão apenas. Refiro-me a um quintal vasto, de tantas vozes, composto por séculos de vivências. Em meu quintal reside a infância, a cooperação, a alegria, a curiosidade, o medo, o luto (perdas fortalecem e reforçam o amor à vida). Vivem no meu quintal o sonho, a esperança e tantas manifestações de afeto, vivem pessoas queridas, vivem fantasmas conhecidos, a criação e, também, algum deslustro. Vive também a história (viva) dos meus antepassados, o legado dos recomeços, o estrangeirismo que me permite pertencer e não-pertencer (tanto no aspecto intra como inter-subjetivo) aos quintais que se apresentam, inclusive ao que eu chamo de meu. Porém, não Sou sem o quintal que me habita.
Desde as primeiras memórias de infância, o “estrangeiro” compõe meu quintal. Ao pensar nas minhas vivências confabulei com o “estrangeiro”, vesti-me de questões históricas e outras míticas. Vivi um tempo ancorado no passado. Cantei do alto do pé de caqui "...eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar..." Folheei meus dias nos recontos ocorridos dezenas de décadas anteriores ao meu nascimento. Isso porque meu processo de subjetivação se deu em uma bolha, na qual tudo se assemelhava na mesma medida em que causava estranheza, porém estruturava o modo de vir a ser, salve o "estranho" que se fez caminho.
O curioso, quando se vive em uma bolha cultural de alta preservação de costumes, é que o presente surge tonalizado pelos antepassados e embora atual preserva o pigmento rosa - choque - o mais antigo dos pigmentos. Assim, tinha a sensação de estar conectada com outros quintais (inclusive os geográficos). Eis o estrangeirismo pulsante: os objetos, as vozes, os lenços de cabeça, as fornadas coletivas, as visitas de quartas feiras ao cemitério - tudo com o propósito de manter a transmissão.
Rituais que despretensiosamente alimentavam o “estrangeiro” também produziam desejos e planos futuros (ainda mais ligados ao passado e ao território de origem da cultura). Os Filós e as rezas dos fins de tarde embrulhavam o barulho das pedras do moinho, o cheiro de madeira serrada, o os parreirais, o cheiro do mosto e o parmigiano (que imitava o reggiano), parte indenitária da cultura - que não subtraia das crianças a identidade máxima - vinho diluído, bebido como refresco. E o maior constituinte: amor à natureza da vida, de todos os tipos de vida. Estas tantas e mais a companhia permanente dos “velhos sábios" são memórias que compõe os livros de minha biblioteca interna, o tal quintal. Nada, nunca, removeu do presente a vivacidade do passado, pois os dois convivem em interface, movem as mós produtoras de realizações, a criatividade e os suspiros.
Envolta em similaridade e estranheza, cresço parceira do “estrangeiro” que voluntariamente dedica-se ao processo identificatório e contra - identificatório. Que permite que alguma diferença se instaure e escreva um novo traçado. É sabido que o conceito “estrangeiro” é amplo, e, também, se aplica a um olhar segregado que rege sentimentos de amor e ódio quando se tratando de não reconhecimento de si no outro.
Mas não é sobre isso que escrevo. Nesse fragmento falo do "estranho" que faz morada em meu ser, que me permite conviver com Adrios e Amelis, com rosas e gentes, impressões e inventos, realidade e finais. Quantos quintais moram em mim? Não sei de fato, somente sinto que são tantos. Ainda bem! Deste modo posso seguir a passos com o “estrangeiro” aquele que carrego também no olhar, o qual me permite refazer o traço, avançar ou recuar. Recuar é um treino antigo e sempre se manifesta diante de situações ameaçadoras, mas nem sempre é possível fazê-lo a tempo. Mas eu tento. Quando o “estrangeiro” demora a se manifestar, meu risco de envolvimento com algo ainda mais "estrangeiro" é maior, mas nunca aniquilador. Resiliência e generosidade são ativos importantes. Ademais, avanços e retrocessos me interessam. São analisadores eficazes para viver com intensidade e alegria esta "uma vida" somente minha. E, Importam ainda mais quando o que se sabe da vida é a brevidade e a passagem. Que a terra transforma em flor o que recebe. E que tudo recomeça na primavera com um novo canto em um memorável quintal.
E sobre ter um milhão de amigos? Eu tenho amigos valiosos, com quintais que trasbordam afetos e cantorias. Sei que mesmo longe brindaremos cada palavra solta ao vento, pois a vida é sabia - ensina que " O Amor não se Lê" sem um nível de estrangeirismo e dedicação.
Arrivederci!
Katia Bonfanti

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Simplemente belo....