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Despedir-se permite ver (guardar) a cena no detalhe...

Atualizado: 21 de fev. de 2022

Esse recorte de escrita alude a saída de Roberto, um ex-combatente da guerra ítalo-turca, de seu país. Ele como milhares de italianos viram na imigração a possibilidade de sobreviver. Refugiar-se levando na mala o mais precisos: a esperança.

Brava gente!!!

21 de fevereiro, dia de celebrar a imigração Italiana no Brasil.


"A cidade portuária impunha-se como uma praça de partidas e chegadas. O clima d’amore, envolto na brisa salgada e fresca vinda do mediterrâneo, dobrava as esquinas, acariciava monumentos vivos e bem vestidos. Destes escapavam sussurros borbulhantes dos encontros casuais desaguando em promessas calorosas e prenúncios de êxtase. A chama da paixão arregalava os olhos em procura voluptuosa, engolidora de beldades, de luxúria, e também de afetos. Favorecidos pelas temperaturas amenas, os corpos tornavam a mostrar a tez clara quase leitosa. Envoltas delicadamente em echarpes transparentes de voile de seda, as mulheres lançavam seus olhares sofisticados e enlaçantes sobre os poucos avulsos que desfilavam em seus trajes bem cortados de linho italiano. O traje, bem provável, remontava o único bem a ser apreciado além da bela figura calçada em um par de sapatos de couro lustrosos. Em tempos de guerra, todos estavam querendo o mesmo: fruição do desejo. Um modo de ofuscar a realidade belicosa que a brisa insistia em trazer para a vida. A Itália tinha seus encantos, mas a fome e a tragédia surgiam em todos os cantos. A Europa estava em crise.

Deixaria tudo naquele tempo e lugar. Levaria em si apenas lembranças e memórias salgadas. Na mala alguns pertences.

O Porto de Gênova era o portal que reluzia esperança. O mesmo porto que aportava sonhos recém chegados, era também a porta de saída para o mundo. Pegaria o rumo ofertado. Com o “Bollettino dell’ Imigrazione” na mala, o ex-combatente do exército, recolhia-se às suas profundezas para enfrentar mais um desafio grandioso. O tempo ameaçador de viagem, que não seria simples nem curto, e o encontro com novos territórios geográficos e psicológicos. O provável futuro, restaurador de identidade, vinha depois do Atlântico. A frase talhada pela comissão de imigração da Fundação Dante Alighieri fixava o Viva a Itália, sempre! Roberto tentaria a sorte apostando a vida sobre as águas intimidantes, rumo a o país prometido, porém com a Itália marcada no coração.


Arrivato in Brazile!!





(Gênova, outubro de 1912)

Katia Bonfanti, psicóloga e escritora














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