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Palavra arrancada pela raiz 


Katia Bonfanti




Meu Eu jardineiro empenhou-se em dar novas peles às palavras arrancadas pela raiz. Arrancadas, vivendo em carne viva, agonizantes, sem sentido, como se nada mais pudesse ser feito para salvá-las. A mais dilacerante experiência de recuperação envolveu a palavra "amor". Esta, aos prantos, retirada de seu humus verdadeiro, fora levada, sangrando, para o canteiro do desespero.

Eu, comovida e ciente de que não há como viver sem este restauro, dei-me a jardiná-la. Precisava recuperá-la com urgência, então, primeiro devolvi a ela alguma possibilidade de existência – composto de florestas, pó de estrelas, alguns vagalumes e gotas do primeiro orvalho da madrugada. Depois, fui ao pé da igreja às dezessete horas em ponto e aguardei os bem-casados terminarem a sessão de fotos no jardim. Em seguida, recolhi as flores mais maduras de amor-perfeito. Preparei com elas o chá vital. Reguei pacientemente a palavra em carne viva, dia após dia. Um tempo depois da minha disciplinada presença e afetuosa esperança, pude ver surgir em plena luz o enraizamento. Estava novamente plantada a palavra. Uma palavra nutrida pelas águas reconfortantes, tornara-se outra vez amor.



Bem-vinda primavera com toda a sua força de trasformar cada cantinho em amor.

 
 
 

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