O peso do amanhã nos olhos de chumbo
- katiabonfanti
- 23 de out. de 2024
- 6 min de leitura
Atualizado: 24 de out. de 2024

O peso do amanhã... nos olhos de chumbo
Por Katia Bonfanti
Descia a rua 25 de Abril, envolvida na estação das flores que, ironicamente, se manifestava em pleno outono. Para mim, outubro é sempre primavera — ainda tenho essa referência gravada na alma, de tantos anos vividos no Brasil. Agora, aqui em Portugal, o outono floresce de uma forma que só quem viveu outra realidade pode entender. Caminhava sob os grandes plátanos, quando uma voz me tirou daquela imersão:
— Com licença, jovem senhora, teria qualquer coisa para ajudar? Eu uso este remédio para os olhos, mas estou sem todo o dinheiro...
"Olha só...", pensei. "Se é para os olhos, é algo que não pode esperar." Sem hesitar, dei um passo em direção ao homem que já se aproximava de mim. Trazia um pequeno frasco na mão e uma bolsa gasta a tiracolo. Parecia ter setenta e muitos anos. Os óculos de sol com lentes escuras acinzentadas que usava, criavam um contraste curioso: ao mesmo tempo em que sugeriam a necessidade do remédio, também me deixaram ligeiramente desconfiada.
— Não costumo andar com dinheiro — avisei, abrindo a carteira, sabendo que era verdade. Os cartões e o MB Way transformaram as moedas em raridades no meu dia a dia.
Ele sorriu, talvez por perceber a minha sinceridade, talvez por notar que, de facto, eu não tinha muito o que lhe oferecer. Mas lá estavam algumas moedas. Rimos juntos quando encontrei um euro e setenta cêntimos. Entreguei-lhe o dinheiro, e ele agradeceu com uma expressão de gratidão que parecia vir de um lugar profundo. Aquela pequena quantia, naquele momento, era muito mais do que apenas moedas.
Continuei o meu caminho. Era quarta-feira, e eu decidira ir ao Mercado da Vila, fazer a feira, tomar um café... Apreciar o primor que a esplanada oferecia. Ao parar em frente a uma vitrine, distraída, senti-me observada. Ao virar, lá estava o senhor Alberto — o "velhote", como chamam os senhores mais velhos por aqui. O mesmo sorriso.
— Fiquei muito agradecido por me ajudar — disse ele, aproximando-se. — As pessoas mais jovens costumam não parar para os velhotes.
Achei graça.
— O senhor me chama jovem, mas os meus vinte já ficaram para trás há trinta anos... — rimos juntos.
Fomos andando lado a lado, a um ritmo lento, enquanto o Sr. Alberto partilhava as suas histórias de vida. Era reformado, ex-combatente, e lutou na guerra da Guiné.
— Sou ex- combatente, fiz carreira no exército, disse ele com voz de quem cumpriu a missão.
Passou quatorze anos em Moçambique, onde sofreu um ferimento grave nos olhos. Tinha agora uma visão reduzida, resultado de uma guerra que nunca o abandonou. Quando tirou os óculos, vi que os seus olhos carregavam não só as cicatrizes físicas, mas também as da alma. A guerra estava inscrita neles, profunda, intacta. Envergonhei-me de ter pensado que as lentes eram uma estratégia golpistas.
Contou-me que, após toda aquela luta, vive com uma pensão de setecentos euros por mês, além de cento e cinquenta euros anuais pelo ferimento que quase lhe tirou a vista. Com o passe livre nos transportes - pelo menos isso - viaja pelas cidades vizinhas, passeia, espairece... e, quando é preciso, pede ajuda para os medicamentos que o subsídio não cobre. Vive em Lisboa, mas quer viver em uma cidade menor, mais tranquila e humanizada. Falava de Cascais como uma cidade acolhedora, com pessoas que andam calmamente. Vem para Cascais alguns dias por mês. Aqui consegue completar o valor para o remédios dos olhos, que custam vinte e sete euros. Mostrou-me os seus documentos e as bombas para asma. Esta doença crônica teve início na guerra, durante um combate. Acho que ia morrer sufocado. Nunca mais se livrou das crises.
— A vantagem é que estes são subsidiados, se é que ter remédio subsidiado é alguma vantagem, melhor seria não ter asma. Disse ele.
Depois de ouvir tudo aquilo, não pude conter a curiosidade que me invadiu.
— Sr. Alberto, o que assusta um homem que enfrentou a guerra?
Ele parou. A sua expressão mudou, e o silêncio que se seguiu causou-me desconforto, ao pensar que talvez eu não devesse ter perguntado. Não era uma resposta fácil, eu sabia. O silêncio dele dizia tanto quanto as palavras que vieram a seguir, carregadas de uma sinceridade que me desmontou. Eu estava diante de um ex-combatente de guerra. Embora eu tenha escutado muitas histórias do meu antepassado, que lutou na guerra na conquista da Líbia, no exército italiano, aquele silêncio do Sr. Alberto, um desconhecido, deixava-me desarmada no front.
— Na guerra, a gente tinha que se defender. Olha aqui minha testa. Metade é platina. Foram quatro cirurgias... por isso fiquei com o olho pendurado aqui... a guerra é lutar. Cada dia uma vitória... uma ânsia para sobreviver mais um. Amanhã? Amanhã não existia. A gente só pensava no hoje, no tiro que podia acabar com tudo.
Fez uma pausa, os olhos voltados ao chão. Depois, continuou, num tom mais baixo:
— Agora, eu tenho medo. Muito medo. O amanhã existe, e é por isso que eu tenho tanto medo. Não sei como viver com setecentos euros. O que me mata agora é o medo de passar fome, de não conseguir comer o que preciso, de me sentir humilhado...
— a voz dele tremeu — ...de ter que pedir dinheiro. A minha tragédia não deveria ser carregada por pessoas como a senhora, que parecem ser tão felizes.
Aquelas palavras atravessaram-me. A sua dor transbordou por debaixo dos óculos cor de chumbo. A primavera que eu sentira no início do dia, aquela visão florida de um outono acolhedor, de repente desapareceu. Agora, era como se o inverno tivesse coberto tudo com o seu manto frio e cinzento. Caminhávamos sob o mesmo sol, mas o Sr. Alberto parecia preso num mundo gélido, onde cada dia era uma luta silenciosa por sobrevivência.
Convidei-o para ir comigo ao Mercado, tomar um café, comer algo, quem sabe. Ele recusou com gentileza, mas deixando seu sentimento falar.
— O Mercado não é mais lugar para mim — disse ele, com um aceno suave. — Vou sentar-me perto do Hotel Baía. Ver o mar. Talvez consiga mais algumas moedas. Esboçou um riso esmaecido e seguiu em direção ao Centro Histórico.
Continuei a descer a rua 25 de Abril, mas agora tudo parecia diferente. O caminho estava mais apagado, como se a cor tivesse escorrido com as lágrimas do Sr. Alberto. Quando cheguei ao Mercado, o cenário alegre que normalmente me envolvia não me alcançava. Andei entre as bancas externas, os olhos parados em lugar nenhum, os pensamentos ainda presos ao Sr. Alberto e à guerra que ele continuaria a travar. Uma guerra invisível, feita de pobreza e solidão. Tentava entender a perspectiva dele e de tantos outros que vivem esse mesmo desafio: sobreviver. Nem pensam em viver plenamente, apenas sobreviver — não morrer pelas necessidades básicas.
Depois de um tempo, comecei a recuperar-me. Aos poucos, escolhi as frutas, conversei com os vendedores, mas, no fundo, ainda estava lá, na vida do Sr. Alberto, tentando imaginar as privações que ele enfrenta. A cada banca, eu me punha a analisar: não por acaso suas lentes eram acinzentadas... será que, com o pouco que tem, ainda consegue saborear as frutas do Algarve, os azeites, os queijos, os vinhos do Alentejo ou do Douro? Será que o bacalhau, tão apreciado pelos portugueses, também por mim, ainda chega à sua mesa? Que raio de guerra é essa! Que “estado de sítio” estão vivendo esses cidadãos? Como mudar essa famigerada desigualdade? Quem pode? Quem não... E eu...
No meio dos meus pensamentos, o Mercado da Vila foi fazendo o que sempre faz: envolveu-me com a sua energia. A simpatia das pessoas, o aroma do pão, o calor das conversas... É isso, quem não está em estado de guerrilha como o Sr. Alberto, vive. E o Mercado da Vila tem seu poder sobre mim e sobre todos que por lá transitam. Lugar que transcende. Lugar de gente simpática.
Minutos depois, já estava com as frutas no saco, a mesa pronta, o salgado quentinho e o café brasileiro perfumando as conversas... À mesa, uma angolana, uma francesa, uma italiana e uma ítalo-brasileira, a guardar o Sr. Alberto dentro do coração -
bem guardado, como uma história de vida que fez passos com a minha.
O Mercado da Vila é para todos nós, sim, Sr. Alberto. Mesmo que não voltes, a tua presença está aqui.
Até breve.



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Kátia querida.
Suas palavras me tocaram profundamente.
A maneira como você retratou o Sr. Alberto, com tanta sensibilidade e respeito, fez-me sentir cada momento ao seu lado.
A história dele, cheia de cicatrizes invisíveis e batalhas diárias, trouxe à tona uma reflexão sobre as lutas que muitos enfrentam em silêncio.
Seu texto é um lembrete poderoso da necessidade de empatia e da importância de enxergarmos além das aparências.
Obrigada por compartilhar essa história tão humana e comovente.
Impressionante.... 🙌🙌🙌🙌