O Mercado: Onde Negócios e Vidas se Encontram
- katiabonfanti
- 15 de jan. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 12 de ago. de 2025

No coração da cidade, o Mercado é mais do que um local de compras — é um ponto de encontro onde histórias se cruzam, vidas se encontram e negócios se firmam. Recentemente, fui lá em um dia de chuva, quando o céu cinza e a previsão de aguaceiros pareciam anunciar o fim das atividades. Mas, como sempre, o Mercado seguiu firme. Os vendedores, molhados pela madrugada, estavam lá, prontos para oferecer os produtos da terra. Não ir ao Mercado, diante de tanto esforço, parecia-me uma heresia.
Chegamos ao estacionamento e, entre a sorte e a chuva, encontramos uma vaga. Uma corridinha rápida e, apenas levemente molhadas, alcançamos a esplanada. Pedimos café e um pastel de abóbora com queijo da Serra da Estrela, produzido pelos Salgados. Pena que o Mercado ainda não dispunha de mesas protegidas para tempos chuvosos. Encolhemo-nos o máximo possível para evitar nos molhar, mas, apesar dos respingos, rimos e nos divertimos.
Ana Cláudia Guimarães, brasileira com alma expansiva e coração lusitano, vive em Cascais há 26 anos. Enquanto tomávamos café, ela recordou como, antigamente, o Mercado era muito mais simples. "Não havia esta praça, nem feira", ela disse, olhando para o passado com nostalgia. Fiquei lembrando do senhor de 102 anos que encontrei dias antes, e que me falou sobre o Mercado como uma grande horta, vendendo produtos frescos. Na verdade, muitas frutas e legumes agora vêm de longe, até de outros países. Isso, de certo modo, diz muito sobre a evolução do Mercado, mas também sobre o impacto disso na saúde das pessoas.
O Mercado de hoje, com sua diversidade de produtos frescos e encontros inesperados, transformou a vida de Ana. Lembrei-me de como ela começara sua carreira como agente imobiliária e encontrou ali seu primeiro cliente. O Mercado, para ela, é mais do que um centro comercial — é uma espécie de Natal permanente, cheio de trocas, encontros e milagres cotidianos.
Ana, sempre cheia de sonhos e planos, fala de Portugal com a ternura de quem encontrou uma segunda casa. Quando tentou voltar ao Brasil, o coração lusitano falou mais alto, e ela retornou com a família a Cascais, sabendo que este não era apenas um lugar de passagem. Com o marido e os filhos portugueses, Ana encontrou em Portugal o que ela chama de "lar", um local onde se sente plena, com raízes profundas.
Batalhadora e profundamente humanizada, Ana transforma as relações de trabalho em verdadeiras oportunidades de acolhimento. Para ela, atender vai muito além de cumprir uma tarefa; é cuidar com atenção aos mínimos detalhes. Seus clientes, mesmo após concluírem os processos, sabem que sempre encontrarão nela uma escuta atenta e uma disposição resolutiva.
Entre uma conversa e outra, mencionou uma cliente estrangeira que, anos depois de adquirir um imóvel com ela, precisou de ajuda para retirar caixas do sótão. Com limitações físicas, a cliente recorreu a Ana para organizar e inventariar os pertences que havia deixado guardados. É inspirador perceber quando um serviço ultrapassa a simples entrega e se transforma em cuidado — um laço que permanece, mesmo após o término do contrato.
Assim, Portugal habita Ana, e Ana habita o Mercado. "É curioso", pensei, como adaptamos o amor a uma terra que um dia nos foi estranha. Ana construiu dentro de si uma casa portuguesa, com afeto em cada palavra. Enquanto ela falava, percebi que já superou a fase de se preocupar com as diferenças entre os sistemas de saúde e outras particularidades tipicas. Está confortável com a segurança que Portugal oferece.
Eu, no entanto, ainda tropeço nessa adaptação. Essa ideia de flutuar entre consultórios sempre diferentes me parece quase nômade. Talvez seja do meu pouco tempo por aqui, de experiência ou, quem sabe, do tal médico de família.
O sino marcou onze badaladas, e Ana, ávida nos negócios que o Mercado inspira, partiu para encontrar um cliente. Eu, porém, não fiquei sozinha, pois outra parceira de Mercado já havia chegado. Ficamos ali, entre conversas que pareciam tecer uma trama à moda de Milão e Reggio Emília.
No Mercado, parece existir um código inconsciente que nos aproxima e nos faz enxergar fragmentos da nossa própria jornada com mais clareza. Falamos de tudo, quase ao mesmo tempo — conversas cruzadas que nos ativam, que nos fazem perceber como estamos conectados aos outros e como precisamos uns dos outros para seguir em frente. Sensibilizamo-nos. Talvez isso aconteça porque, em ambientes multiculturais, nos tornamos mais vulneráveis ao desconhecido — não apenas do outro, mas de nós mesmos.
Na psicologia, isso pode ser explicado pela ideia de que contextos variados estimulam novas formas de percepção. O Mercado, com sua constante mudança de rostos, culturas e histórias, nos força a sair do automático. Quando nos deparamos com o diverso, ativamos nossa curiosidade e somos compelidos a reinterpretar o familiar. É como se o cérebro dissesse: "Preste atenção, algo novo está acontecendo." E, no processo, até aquilo que parecia velho ganha um frescor inesperado.
Muitos momentos nos ensinam que, mesmo quando achamos que temos controle, algo nos escapa e nos faz repensar. O Mercado é assim: nunca é o mesmo, porque é feito de um mundo diverso. E esse eterno renascimento nos conecta, nos renova, nos desafia.
Então, mesmo com chuva e sem as cortinas protetoras, adorei estar com Ana naqueles preciosos minutos entre seu café e sua respeitada agenda de clientes. Ana é uma mulher de muitas lutas e conquistas, e este ano promete ser abundante. Um sinal disso? Seu primeiro café do ano transbordou na chávena — o meu também.
E assim, entre as histórias de Ana, o café que transbordou e as conversas entre mesas molhadas, o Mercado se revelou mais uma vez como um microcosmo da vida: imprevisível, diverso e cheio de conexões que nos transformam.
Viva! agora vou ao Mercado!

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