O dia que em que as forças ancestrais carregaram a semente...
- katiabonfanti
- 30 de nov. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 30 de nov. de 2021

Balançando sobre a cabeça as cartinhas com sementes de esperança. Sobre a mesa centenária, de minha bisavó, as palavras semeando o amanhã. No entorno sinais de que preservar segue sendo o modo de sustentarmos a vida e a nossa história.
Naquela tarde, cheguei ao pequeno vale para levar AR_ ET ao encontro de suas origens. Dizem que escrever um livro é como fazer nascer um filho, então, meu mais novo filho iria conhecer seus antepassados e o lugar onde, eu, sua mãe nasceu.
Encontrei-me com tantas memórias e com tantos guardiões de história...
Pessoas queridas que dedicaram seu dia para que AR_ET pudesse, além de conhecer o nascedouro, encontrar com uma centena de olhos faiscantes e desejosos, crianças ávidas por ouvir histórias.
AR_ET e as sombras despertou no vale a voz uníssona: Preservar é preciso!
Ao som da gaita de Miguel, as sementes foram lançadas do casarão das memórias.

Nessas horas o coração dispara, as lágrimas se desprendem porque fez sentido viver intensamente aquele ato. Semear um futuro com mais amor pelo ambiente onde vivemos. Reunir a força da infância com a potência da semente.
E a força da ancestralidade? Bem, essa veio logo em seguida em forma de chuva inesperada e passageira. Quem acreditaria que o céu azul se transformaria rapidamente em cinza, depois do lançarmos das sementes pelas janelas? O vento trouxe nuvens carregadas de preciosidade: água.
Endereçou sementes recém chegadas à terra, a lugares longínquos. Sinal auspicioso de que nossa parte havia sido feita quando lançamos as sementes pelas janelas de nossa alma. Arremessamos sementes de nossos afetos e garantimos que em algum lugar algum Ipê germine e floresça. O universo conspira para o bem, quando nos lançamos às ações germinativas. A possibilidade de futuro deslizou, gentilmente, junto com a água...AR_ET seguiu com as crianças, deixando em mim a alegria de inspirar dias mais primorosos e sustentáveis.
Nasce'douro (Katia Bonfanti)
Dentro daquele vale
ronda uma onça pintada.
Baforeja a unha-de-gato,
dispensa hora marcada.
Espreita na capoeira,
Com cara de não fazer nada
No coração daquele vale,
recita um rio de água pura,
suspirante frescura.
E sobre ele balança,
hesitante,
uma pinguela de pau e arame,
de boa altura.
Nas trilhas daquele vale,
Pitangas e guabirobas,
pigmentam os caminhos.
Tingem a terra preta,
em amarelo dourado.
Não há quem não imprima pegadas
Nas cores ensolaradas.
Os pomares daquele vale
Vão dançando em muitas notas
Cítricos e adocicados,
baixos e pendulares,
tão apreciados.
E no alto dos pés de caquis,
as astes finas e tortas,
são palco para os canários
dar cambalhotas.
Na pracinha daquele vale
Tem um banco de parada
Para recontar histórias e
Ecoar as risadas.
Para quem vai só descansar,
mirar no azul,
pousará no verde,
no alto das copas dos pinheiros.
Espiar o paradeiro
dos papagaios cantoreiros,
Chocando nos ninhos
frondosos dos entre meios.
No centro daquele vale
une-se a Igreja em capelinha
Adoram os protetores
Santo Antônio e a Consolação.
Elevam Terezinha a padroeira e
a carregam em procissão.
E o poço d’água?
Ah, esse não tem comparação
mata a sede e enlaça o coração.
Entre as casas daquele vale
Mora a casa da nostalgia
Cheia de histórias de vida,
De suspiros e alegria
Não há quem não se enalteça
em remexer na velharia.
Os encontros daquele vale
Despertam moinhos sonoros,
Ventaneiam o silêncio ao ruidoso casarão.
Destravam as malas do tempo,
e brisa qualquer coração.
No sótão do casarão
Tem segredos e animação
tem sabiá cantando
para a pombinha de São João.
A farfallas aflorou com as asas,
um livros de ficção.
E O Baccio ...(dela Morta)
Vai ganhar outra versão.
As campanelas daquele vale
Exalam o doce pelo quintal,
não tem quem não sinta o aroma,
do sininho provençal.
Os dias naquele vale
Demoram a acordar.
Por isso as pessoas de lá,
gostam de se prolongar.
Contam histórias sem fim
E não se importam de recontar.
As noites naquele vale,
Embalam filós e cantorias.
As andanças com as lamparinas
Apagam o medo de assombração.
O ouro do Johann,
Se aguenta escondido e
Instiga a imaginação.
E por fim...Naquele vale
adormece uma terra vazia,
que não cabe melancolia.
Repleta de braços abertos,
se pode voltar a qualquer dia.
O mais lindo daquele vale
Vive aqui (ou cresce ) todos os dias
Tablado de poesia, de silêncios,
e gritarias.
Fornos de pão quentinho,
gente que gosta de gente,
lugar de muita alegria.
Bom passeio pelo vale!!




Créditos fotos e vídeo: Sandro Bonfanti, Verônica Sawariz

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