Mercados a céu aberto
- katiabonfanti
- 5 de jun. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 3 de jul. de 2023

Katia Bonfanti
Fez alguns meses desde minha estada por aqui e nestes mais de cem dias experimentei diferentes sensações.
É um tempo curto, mas suficiente para atravessar a parte intensa de uma adaptação em outro continente, por mais familiar que este pareça. Apesar de meu estrangeirismo nato, sou cidadã comunitária e sinto-me em casa. E se no mercado – feiras em parques, ainda mais.
O fato de não estar a viver no local de nascimento não me impede de fazer casa em pontos distantes de minhas origens, afinal, qual é mesmo o meu, o nosso ponto de origem? Desde onde se nutrem as minhas, as suas, as nossas raízes? As minha são nutridas pelos encontros, e, essencialmente, os encontros que envolvem investimento em transformar qualquer realidade em vida-arte-vida.
A vida é mesmo cheia de acontecimentos. Cascais é um lugar propício aos encontros. Os seus mercados a céu aberto configuram momentos de trocas e devires. Ao chegar por aqui forças me atraíram para estas “exposições” que são pura arte. Pois, nestes espaços de mostra de obras belas, também se expressa a subjetividade humana. E esta composição de obras reveladoras de sutilezas não andam só. Elas compõem junto com os sorrisos, alimentam-se do estar alegre, do exercício da receptividade e das trocas de valências. O sol não fica de fora, enfeita-se com um circulo, para festejar mais um dia de mercado. Estes elementos, natureza em convergência, compõe o cenário do mercado para além do objetivo de vender produtos.
Estar nestes lugares de passagem, de produção humana, de produção de beleza, de expectativas e de trocas é o mesmo que andar ao encontro do devir. É também poesia! Não sei quem vou encontrar, mas sei que sempre vou me encontrar por lá. É no intercambiar emoções e saudades que nos reconhecemos humano. Deste modo de viver aberta aos acontecimentos, posso dizer-me de lugar nenhum e ao mesmo tempo de qualquer lugar, desde que pacífico, acolhedor e belo. Mas é fato, o ônus da mudança é implacável e eu passeio o mercado de mão com algumas saudades.
Entretanto, fortaleço-me nos laços e vivo o mercado na sua maior expressão poética: receber pessoas de qualquer origem cultural - como se fossem parentes próximos -, para eternizar vivências, fazer deslocamentos, trocas e inspirar novos voos.
É a pura arte do encontro.
Sou assídua destes sítios talvez porque ali reverbera o passado e a cooperação. Isso traz a ideia de que o mercado é planejado para desenhar futuros e implementar recordações. Momentos, que mesmo breves, tornam-se duradouros nas nossas memórias. O mercado tem a melhor definição de espaço cross cultural: O “Salgados do Fundão” do Pedro e suas receitas de família - o café especial do Brasil adocicando paladares de diversos continentes... Um suvenir africano para agradar, os queijos franceses para parear com os múltiplos sabores locais, os vinhos portugueses, a moda italiana, a cerâmica TR, feita a mão pelas brasileira Tatiana e Rosângela ao lado das cerâmicas nacionais... Tudo em composição como se fosse um Monet, revelando novos tons a cada exposição à luz.
Para onde quer que os mercados caminhem as pessoas de diferentes culturas estão nele e se comunicam a partir dele. Guardam consigo um instante bem vivido - porque em breve aquela passagem por ali se tornará lembrança... Quadro coletivo, itinerante, que se transforma em um adocicado passado nas memórias de cada um.
Nesta dança de deixar marcas enquadradas nas lembranças, o mercado, torna-se um ente querido para quem vai e para quem fica!
Eu aprecio estes movimentos circulares, ensolarados de conversa e de pinceladas vibrantes. Sou do sol, das histórias, dos sentimentos, das descobertas, dos faróis, das ondas agigantadas pelo vento e da calmaria das águas em noites enluaradas... Sou ainda das “miudezas” e “inutilidades” como o Manuel de Barros, dos Leilões de jardim de Cecília Meireles..., e isso tudo também tem no “mercado”, se temos olhos para ver!
E, sob a luminosidade dos encontros se tece a vida. A cada estampa africana que a acolhedora Margarida apresenta, se faz pontes com a “mama” generosa que lhe habita. A cada convite da Inés, irrompe a cultura local e de brinde a cultura angolana. O sagrado em arte, nascido das mãos da artista plástica Vênus, leva as recordações do Brasil. "Santaideia" que por instantes me põe cá e lá. (Aqui é também é Brasil). Aprecio aquela pequenina imagem de Nossa Senhora Aparecida, em madeira, tão delicada. Ela é toda Nossa a viajar pelos continentes a partir de um mercado...o mercado de saudades da Vênus passa a ser a lembrança e brasilidade para quem quer que seja.
E, como não poderia ser diferente, porque as raízes viajam vão longe e tornam a se comunicar – eu encontrei capilares afluentes à minha história. O afetuoso abraço e a sagacidade da Carmen para captar sinais de emoção, os gracejos e recontos de vida do Gabriele – que me faz lembrar dos encontros alegres na varanda do moinho do meu avô – e, da referência que faz a lapidação das pedras preciosas pelos seus irmãos – todos primos meus italianos. Brilho requintado de histórias, adornam a rocha bem polida - um primor. Prendere un caffè com eles no piccolo ristorante da árvore do mercado é um luxo da poesia do encontro e das “miudezas”.
A subjetividade nestes espaços de ir e vir, instala-se como uma maquinaria onde a vida é reeditada em palavras, em gestos e experiências – boa parte emergida da ancestralidade – força propulsora das gerações em curso.
Sobretudo, encontros no mercado - de “coração” aberto, são sempre acontecimentos que encorpam nossa memória afetiva. O que gravita, ali, entre as pessoas se assemelha às pedras em processo de lapidação: está ao nível da pele – e o mais profundo é a pele! É a partir da pele que se descortinam as nossas camadas invisíveis, subterfúgios dos nossos recônditos existenciais que levamos para ter com o outro.
E os mercados são em suma um ponto de encontro com este outro. Um ponto de encontro potente a apoiar tropeços e ancorar possibilidades, viver alegrias, cultivar esperança, e dotados de humanidade: acolher inquietações - porque estar vivo na vida é permitir aos olhos que se encham de saudade ao mesmo tempo em que inusitadas e saborosas lembranças estão a se fazer ao pé.
Bem-vindos ao mercado!
@mamma_margerita
@morofinejewellery
@tr.ceramica
@salgadosdofundão
@santaideialisboa












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Minha querida foi uma enorme alegria e prazer poder fazer parte desta materia tão bem elaborada e cudadosamente tú soubestes acarinhar cada um que lá estava naquele mercado.
Com a tua sutileza sabedoria e sencibilidade
Foi perfeito.
Um beijinho no teu ❤️
Venus Teixeira
Instagram........@santaideialisboa
Querida Kátia
Seu texto sobre a importância dos mercados ao ar livre em Portugal tocou profundamente meu coração. Ao ler suas palavras, fui transportada para as ruas movimentadas, repletas de cores, cheiros e sons vibrantes.
Você capturou a essência dos mercados, transmitindo sua vitalidade, autenticidade e alegria contagiante. Senti-me como se estivesse caminhando pelos corredores de barracas, ouvindo as vozes dos vendedores e testemunhando a interação entre compradores e vendedores.
Agradeço por compartilhar sua emoção e encantar-nos com suas palavras que capturam a essência dos lugares e das emoções que eles despertam.
Ao ler sua citação sobre a TRCerâmicas fiquei sensibilizada e gostei da escolha da nossa foto – ficamos lindas rsrs.
Agradeço o momento que a conheci.
Beijinhos. Rosângela.
Li tua última postagem, a dos Mercados. É um cesto de emoções tramado com muitas fibras e cores. É uma mostra iluminada da tua nova paixão: o torrão belo e cosmopolita. Escolhi como síntese da tua intensa felicidade a ideia "estou a viver aberta aos acontecimentos". Teus passeios fulgurantes me levaram a passear mais uma vez por todas as trilhas do teu blog. E ele também é belo, diversificado e acolhedor. Teus novos amigos e amigas vão gostar muito. Parabéns.
Luiz Carlos Araújo, do Brasil.