José e os pombos
- katiabonfanti
- 12 de ago. de 2024
- 2 min de leitura
Atualizado: 15 de ago. de 2024
Katia Bonfanti

O ator surgiu em cena, deslizando por entre as mesas da esplanada da padaria como uma brisa suave, quase imperceptível. Cada passo e cada gesto eram cuidadosamente coreografados, braços e pernas movendo-se em perfeita harmonia, como se seguissem o compasso de uma música inaudível. Na boca, as palavras nasciam envoltas em algodão, suaves e sem som, como se fossem apenas um murmúrio do vento. “Homem ao Vento” — talvez essa fosse a definição perfeita para aquele que se movia pela esplanada do café, à beira do Parque Eduardo VII, no coração de Lisboa.
Ao alcançar uma mesa, José libertou um sorriso branco, de onde brotaram palavras embebidas de significado.
Enquanto deslizava a flanela sobre os pequenos sinais de farelo, removendo-os com a delicadeza de quem polia o insólito, preparava o palco para mais uma edição do ritual matutino: o pequeno-almoço, ambientado por ele, o protagonista silencioso. Levava-se com a leveza de um pombo-homem, flutuando sobre o chão de madeira. – “Eles são o meu desafio diário”, confessou com a voz calma, enquanto executava uma dança discreta, um bailado espelhando o movimento dos pombos ao redor. – “Os ratos do céu... Pequenos ratos voadores... os vilões dos meus dias.”
E então, seus olhos se estreitaram num sorriso de quem conhece intimamente o peso do pouso de um pombo. Ele sabia o quanto lhe custava cada um daqueles visitantes famintos, e ao mesmo tempo, o quanto ganhava com cada um dos “ratos voadores” que adornavam a esplanada, dia após dia. Todos os abençoados dias.
Sorriu lentamente, permitindo que eu decifrasse o enigma dos significados escondidos nas palavras que dançavam pelo ar. José, o ator, fazia de cada aceno da flanela um ato de diversão, entretendo-se enquanto aumentava a grandiosidade de seu espetáculo matutino. Impecável em seu desígnio. Um trabalho leve, e ao mesmo tempo, duro. Exigente. Potencialmente insalubre.
José conhecia bem a origem daquela dança e o seu propósito. Havia uma promessa oculta, selada entre ele e os outros atores desse pequeno-almoço encenado na esplanada. O que seria? Os pombos vieram do céu, mas José, de onde veio? Não sei. Talvez de uma terra onde o sol é incandescente. Mas sei que ele orquestra com os pombos, contracenando em voos silenciosos, como num balé aéreo. Eles agradecem cada migalha posta à mesa, mesmo quando não ganham, como quem reconhece o valor de uma oferta preciosa e difícil de obter.
Ao final, o ator da esplanada da padaria se despediu de mim, deixando uma última linha para o roteiro :
– “Não esqueça o lado dos pombos, eu preciso deles!” Dei alguns passos adiante e, ao voltar o olhar para a esplanada, já não avistava o ator em sua coreografia solar. Restavam apenas os pombos, festejando meu pequeno-almoço, sobre os ombrelones que abrigavam a esplanada da padaria naquele domingo de verão.

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