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JOHAN E O OURO ALEMÃO

Atualizado: 6 de dez. de 2023


Histórias

Verídicas da

Minha Terra

AntologiaALMURS 2020


JOHANN E O OURO ALEMÃO


Nasci num pequeno Vale chamado de Linha Bonfanti na região Norte do Estado do Rio Grande do Sul. O pequeno Vale foi colonizado por meu Bisavô Roberto Bonfanti, um ex-combatente do Exército Italiano que fez front na guerra Ítalo Turca em 1911. Ele se interessou por aquelas terras por ter um rio largo e ser um local inóspito aguardando desenvolvimento. Por ter visão de negócios e possibilidades de desenvolvê-los, Roberto se lançou a empreendimentos e estradas para levar seus produtos e aproximar as pessoas para perto do Vale. Desenvolveu no Vale um pequeno polo comercial e industrial.

Primeiro mobilizou ações de abertura de estradas, depois abriu uma loja de suprimentos alimentícios e têxteis, fez um moinho para produzir farinha de milho e trigo, um descascador de arroz, uma serraria e produziu energia elétrica para as redondezas. O Johan do Ouro fez parte desse projeto criativo. Mas, antes de falar do Vale, vou contar um pouco da trajetória de Roberto, revelando minha admiração pelo empreendedorismo, pela dedicação ao sonho, a manutenção da esperança e o amor às pessoas. Ele chegou ao Brasil em outubro de 1912, a bordo do navio Bologna, que partiu do Porto de Gênova com destino à “terra da cucagna”, ou terra da fartura, o Brasil.

Desembarcou no Porto de Santos 40 dias depois e de lá partiu no barco a vapor para o Rio Grande do Sul, em busca de prosperidade e paz. Tinha um plano em mente: desenvolver uma queijaria, valendo-se dos conhecimentos adquiridos com sua família, na produção do queijo Parmiggino Reggiano, na Reggio Emiglia, norte da Itália. O Jovem Roberto, empreendedor, nutrido de esperança e em busca de se restaurar dos sofrimentos da guerra, aventurou-se no desenvolvimento do negócio, na estruturação de sua vida pessoal e franqueou-se ao amor. Apaixonou-se pela criativa Maria Chini. O romance dos dois suscitava suspiros. As cartas deixadas por Maria, embaixo do travesseiro de Roberto, no quarto do hotel do pai dela, levaram os dois ao altar. As escritas poéticas, que vieram na mala da avó de Maria, embalaram o amor que rendeu muitos filhos e muitas histórias para contar, como essa.

O casal Roberto e Maria viveu na Serra até 1932, quando Roberto, cheio de projetos empreendedores, decidiu desbravar o norte do RS. Escutou falar de um lugar chamado Lajeado Grande, em virtude de um rio com potencial de mover um moinho e gerar energia elétrica. A luz elétrica dentro de casa era um sonho de Roberto e uma raridade nas cidades do interior do RS naquele momento. Roberto comprou as terras e colocou o sonho a produzir realidade. Foi com Victório Bonfanti, seu filho mais velho, meu avô, para o Vale investir na construção da casa grande. O projeto que havia delineado rascunhava uma casa com porão e mais três andares. Toda em madeira larga fixada por pinos, a casa grande abrigaria a família constituída com Maria.

O casal tinha duas filhas moças, Regina e Margarita, e cinco meninos, sendo eles, Victório, Luiz, Paulino, Aldo e Ivo. Depois de um ano de trabalho, a casa estava pronta e, então, a família migrou para o Vale.

O Vale foi palco do segundo momento do projeto de vida do meu bisavô. O idealizado Moinho fundado em 1938 para fazer a farinha de milho e os demais empreendimentos, dependiam de energia. A geração de energia dependeria da abertura de um canal, obra trabalhosa para a época. Roberto projetou o caminho de acesso da água de modo que a força movesse a roda d’agua e assim mover as mós do moinho (pedras circulares e rotativas dos moinhos), além de gerar a energia elétrica para a residência da família. Mas como cortar o canal na pedra para trazer a água até o moinho? Roberto era bom em projetar, mas, precisava mais do que projetar, teria que executar uma obra com explosões das lajes, trazendo a água até o reservatório logo acima do moinho. Dinamites não eram seu forte, pelo contrário. Explosões o faziam relembrar momentos no litoral da Líbia no período da guerra. Experiências lúgubres que ele queria deixar no esquecimento. Porém, entendeu logo por que o lugar se chamava originalmente de Lajeado Grande. Relutou, mas não desistiu. Buscou informações sobre abertura de canais.

Viajou para Sarandi e veio a saber, de um engenheiro estrangeiro que entendia de explosões. Roberto se interessou no serviço especializado do estrangeiro. Deixou recado e seu endereço no comerciante que conhecia o homem. Eis que num belo entardecer no Vale da Família Bonfanti chegou um homem estrangeiro, de poucas palavras, com uma boa carga de bagagens. Nas escassas palavras que proferiu diante das indagações de Roberto, revelou dificuldades com a língua portuguesa e total desconhecimento da língua italiana. Apresentou-se como Johan e se fez entender mais em gestos do que na língua alemã, que era engenheiro e entendido em explosões. O homem de olhar misterioso, aparentando em torno de 30 anos, sem entender muito mais do que precisava, mostrou interesse em ficar para o trabalho. Descarregou os pertences da carroça e organizou-se no espaço para visitantes, oferecido pela família. Meu avô Victório, adolescente na época, ficou interessadíssimo no homem com aquele poder de fazer a laje subir pelos ares. Sim, essa habilidade de explosão foi explicitada com sons onomatopaicos, sem precisar legenda. Vitório sentiu certo receio, mas muita curiosidade. A língua e o estranhamento de hábitos não impediram que os dois fizessem amizade.

Eu sou da segunda geração nascida no Vale. Antes de mim, meu pai e meus tios trilhavam o caminho do moinho. Os tios e meu pai, revezavam-se nas tarefas da moagem durante a adolescência. O tio mais novo, pelo que eu sei, por conta da asma, ficou longe da farinha, mas não escapou das tarefas da casa e da horta com minha avó, junto com as tias.

Quase quarenta anos depois de ter sido fundado, o moinho seguia em pleno funcionamento sob os cuidados do meu avô Victório e de meu pai, que foi o único dos filhos que ficou no vale assumindo o projeto familiar com meu avô. Na minha infância escutei inúmeras vezes as histórias dos desbravadores, vivenciada pelo meu avô e recontada pelo meu pai. Dentre essas, a do Johan despertava muita imaginação.

Lembro-me de uma passagem em que eu e meu avô disfrutávamos de algumas laranjas na varanda do moinho e ele discorria sobre as esquisitices do saudoso estrangeiro Johan. Nesse dia, meu vô segurou o sal dentro dos seus olhos azuis, copiosos de nostalgia. Revelou gratidão pela convivência com o amigo forasteiro. Meu avô relembrou peculiaridades do comportamento de Johan. Por razões não explicitas o enigmático homem só trabalhava à noite com sua lamparina a querosene, sumindo durante o dia todo. Johan foi atuante na canalização da água e, portanto, na transformação sócio-econômica do pequeno vilarejo e da região. A vazão de água gerou a sonhada luz que Roberto havia prometido à sua amada Maria. A luz traria muitas mudanças. Acenderia a vida no Vale e ainda iluminaria Maria nos seus prazeres: as leituras e as costuras.

Além da luz, a força rodava as engrenagens da produção de farinha, o descascador de arroz e o acionamento da serraria para preparação da madeira para a construção das casas na região. Johan foi parte nessa conquista de desenvolvimento local e Victório fez parte da vida do estrangeiro misterioso, o tanto que ele permitiu. Os dois foram grandes amigos e confidentes mesmo tropeçando nas diferenças de cultura e idioma. Johan confiava em Victório e depositou nele alguns segredos, entre eles a confidência de que havia queimado seus documentos para não ser identificado. Contou também que, ao chegar ao Brasil, trouxe uma expressiva quantia em barras de ouro e moedas. Escondeu a metade da quantia nas proximidades do Rio Jacuí e a outra metade das barras e moedas trouxe para o Vale na bagagem. O ouro havia sido enterrado às margens do rio Lajeado Grande. Johan contou que havia trazido a fortuna do seu país de origem, de modo “mal explicado” e supostamente “mal havido”. Meu avô guardou em segredo aquelas confissões. Johan nunca mais saiu do Vale. Escolheu o lugar como um refúgio e que belo refúgio. Amava o rio assim como Roberto e eu. Anos mais tarde, Johan contraiu uma doença infecciosa que evoluiu rapidamente, deixando Johan debilitado. Conseguiram buscar o médico da cidade vizinha na esperança que ele tratasse de Johan. Infelizmente ele havia contraído o Tifo e nada mais poderia ser feito naquele momento. Assim que o médico voltou para a cidade, meu avô foi acompanhar Johan nas suas últimas horas. Estava ciente da gravidade da doença do amigo, mas queria se convencer do contrário.

Johan sentia a morte lhe chegar às bocadas de sangue. Sem rodeios e na fala atrapalhada de estrangeiro que não evoluiu no português perguntou a meu avô: “Victoria, diz se eu more?” e meu avô lhe respondeu em tom encorajador, buscando passar confiança de que ele não morreria. Disse que ficaria bom em alguns dias, pois era um homem forte. Queria acreditar mesmo, contrariando os fatos. Minutos depois Johan perguntou a mesma coisa e disse complementando sua angústia: “se eu more eu conta do ouro”. Meu avô não estava interessado no ouro e sim na vida do amigo. Johan era mais valioso do que o ouro.

Estar com o amigo nos seus últimos minutos deixando-o acreditar que iria viver foi um ato de lealdade e compaixão. Johan sucumbiu à moléstia e foi sepultado no cemitério da comunidade, como um familiar querido. Anos depois, um irmão de meu avô encontrou num lavrado uma panela de ferro cheia de moeda de ouro, resquícios da fortuna do estrangeiro misterioso.

Johan nunca se foi para sempre. O mito do ouro permaneceu vivo no Vale, assim como o misterioso estrangeiro. As novas gerações cresceram com esse conto, que mistura realidade e muita imaginação. Minha avó Luiza cuidou dos utensílios do Johan e suas panelas de ferro, que eram emblemáticas e portavam enigmas para os que escutavam a história. Minha mãe, foi presenteada com uma delas. Eu acompanhei algumas incursões de experts que eram trazidos por algum familiar para localizar metais preciosos. Essas entradas de estranhos sempre causaram desconforto em meu avô que achava uma afronta às memórias do amigo falecido.

O mito rendeu acontecimentos, desde perfurações nas margens do rio até incidentes envolvendo assombração. Meu pai, seus irmãos e primos costumavam ir ao rio nas noites de verão e contam que em uma noite foram assombrados pelo Johan. Alguns deles juraram que tinham visto Johan com sua lamparina caminhando perto do rio. Eu, que permaneci no Vale até meus 12 anos, boa parte deles dentro do rio, nunca o vi de fato, mas ele estava por lá protegendo seu ouro, produzindo estalos nas árvores, balançando os pequenos arbustos e espalhando as guabirobas maduras pelo caminho, para quem quisesse se deliciar.

Para sorte e permanência da aliança familiar, ninguém conseguiu decifrar os códigos do Johan e nem capturar maiores detalhes com meu avô. Ele manteve lealdade por uma vida toda e se ficou sabendo do local do ouro ou de planos obscuros e histórias comprometedoras envolvendo o amigo, as levou consigo para o além.

Meu avô Victório viveu sem ambições com muita lucidez até seus 96 anos. Meses antes de seu falecimento, eu e ele desfrutávamos da vista da rua na cadeira de balaço, não no moinho como costumávamos na minha infância, mas com a mesma alegria e cumplicidade de contar a vida para o outro escutar, meu avô disse: “sabe Catarina", o Johan era um homem do Hitler e o ouro nunca vai ser encontrado, nunca!”.

Assim, compreendi que o mito se perpetuará nas novas gerações da família e de pessoas da vizinhança que souberam da história do Johan do Ouro. E no fim da vida ele estava trazendo um elemento histórico: Hitler

Os anos se passaram, Johan, meus avós e meu pai, foram para outro plano, permanecendo somente nas nossas memórias. Eles se empenharam em manter a história da família viva. Hoje assumo esse lugar de mantenedora de memórias culturais da minha terra, contando esse fragmento do percurso familiar, que estará na integra, no romance que estou escrevendo.

Por fim, para quem gosta de lugares pitorescos e aconchegantes, deixo o convite. Visite o pequeno Vale da Família Bonfanti e se encante com o moinho, a casa grande, a igrejinha e o rio de lajes largas e águas transparentes. Tem uma coisa que precisa saber: a música é sempre a mesma. Mas, posso lhe garantir que é encantadora – o inesquecível canto das saracuras ao entardecer. E se tiveres coragem, tente encontrar o ouro do Johan, enterrado às margens do rio das lajes grandes. Leve sua própria lamparina a querosene e saiba que eu não irei com você. Mas, se seguir o perfume das campanelas, o caminho te levará ao rio. Do alto você vai ver eu e meu irmão, brincando nas pedras e, à espreita, escondido atrás das árvores, o misterioso Johan.

PS: O pequeno Vale da Família está ao Norte do Estado do Rio Grande do Sul, próximo de Constantina e Sarandi. Há 400 km de Porto Alegre.




 
 
 

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