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Eu Sabi-á

Atualizado: 7 de jun. de 2023


O quintal acordou mudo. Mutismo esperado depois do declínio de Adrio - o Sabiá-Laranjeira, cantor do amor e das primaveras. Adrio, com seu peito laranja ferruginoso, arrebatou o coração de Ameli, antes mesmo de setembro chegar.

Os dois enamorados começaram a trabalhar pela existência. Ela buscava o graveto e ele tramava. Depois ela na tramada e ele revoava ligeiro, retornando com fiapos de folhas secas e galhinho. Por fim trazia uma espécie de cordão gramado com o qual alinhavavam com dedicação o ninho-lar. Bicos feito agulhas levavam e traziam o arremate da obra. Franjas e pontas soltas acompanhavam o movimento da paisagem. O acabamento sofisticado sustentando sem nós. Uma artesania primorosa no tempo mundo passarinho – instante que se gastava sem fim.


Revezavam-se na tessitura do seguro ninho. Toda a edificação passareira fora feita na Alamanda do gazebo, alinhada à vista da varanda. Casal iluminado de pássaros. E se fosse somente de ver a animação, mas que tem a sorte de vizinhar com um lar de Sabiás aprende que a proximidade transmite paz, melodia e encanto. Há quem se desconforte? Já ouvi dizer que sim, mas aí não é problema dos Sabiás.

Habitantes de um mesmo quintal, em um vasto jardim compartilhado – humanos, aves e outros seres, descobrimo-nos pares: eu escrevo e eles cantam. Em (en)cantos e rimas nos entendemos. Somos tão natureza e diversos, experimentadores, corajosos e também frágeis, cada um em seu tamanho e re-verso.


Nas tramas, ciscos e ritmos contratamos tão bem que Adrio, por vezes, sente-se convidado a entrar na casa. Aprecia juntar os farelinhos de pão deixados pelos curumins após o café da manhã. Algumas vezes perde-se e precisa de ajuda para revoar ao ninho. Ameli fica assustada, saltita impaciente no barrote do gazebo chamando Adrio para fora. Depois, no ninho dá sermão. Passado o estresse, ambos se embalam feito frutas nos galhos do limoeiro - mantra de relaxamento conjugal. Aliás, sobre limões: um modo bem italiano de comemorar bons momentos e deixar o pensamento voar. Cercar-se dos aromáticos sicilianos e de boas companhias. Italianidades transmitidas pelo quintal das memórias. E, os sabiás aprendem, ou somos nós que aprendemos com eles.


Salvo alguns sustos, o nosso pequeno pomar urbano sempre prezou pela harmonia e a boa convivência entre insetos, animais e plantas. E, no amarelo dos limões, sendo pássaros ou gente, encontramos um sedutor convite à descontração.

Adrio sabia se divertir no galho e no chão. Confiava indiscriminadamente na segurança do território, por conta disso minha casa era também seu ninho. Ameli não vacilava, sabia que onde vive um cão reside um risco. Prudência de fêmea!? Pode ser! Mas a presença do cão deixou de ser ameaçadora depois de um tempo. Cão e sabiá estavam amigos. Caminhavam juntos no quintal um decifrando o outro. Embora com alguma distância, pareciam aproximados. Características de dois seres desenvolvendo uma relação.

Mas como a natureza tem regras próprias, e às vezes indecifráveis, o cão instintivamente investiu sobre a ave. Não sei se para brincar como faz com os bichos de pelúcia, ou para saber de que material seria Adrio feito por dentro - ou quereria roubar-lhe o canto?, Não sei! Num vacilo de Adrio e uma distração minha, enquanto ele ciscava no pedrisco, veio o golpe. Voei sobre o bicho peludo, aflita.


Cheguei tarde demais. Ao ser largado pelo cão, Adrio soltou um som - não era canto, nem grito, nem pio - quem sabe um gemido. Peguei-o na mão com zelo e tristeza. Encorajei-o a viver. Seus olhos exalavam finitude. Meu coração havia sido perfurado por aquele ato instintivo do cão e Adrio tremia como pluma ao vento, com as assas desalinhadas, as pernas sem força e, de dor, emudecido. Cocei-lhe as plumas da cabeça a perguntar:

– O que foi, meu passarinho? Diga-me o que devo fazer para te devolver sem dor ao ninho? Você é uma alegria nesse pomar. Fique aqui, meu cantador, nosso pássaro do amor!

Ameli, que enxergara a cena de cima, voou pra mais alto e somente depois se aproximou. Revisou as penas no pedrisco, veio bem perto e mirou-o como quem examina a ferida. Adrio sacudiu as asas e a cabeça. Ameli emitiu um pipilar e depois se foi. Voou até sumir no azul. Não sei se irá retornar ao ninho, sem seu amor de passarinho.

Eu e ele ficamos com o fantasma da passagem, aquele que avança dentro de um trem sombrio, sem sabermos se no fim da escuridão haverá luz. Tentei abrir algumas janelas, encontrar saídas... Nada. Adrio iria atravessar a escuridão na minha companhia, mas era apenas sua a treva da finitude.


Adrio me olhava terno, sem queixas e sem horror. Estava seguro aos meus cuidados, mas seus ferimentos o condenavam. Certo que sim. Não aceitou beber nem comer. Nenhum farelo de pão, nem a fruta amassada pareciam do seu cardápio. Isso nunca acontecia. Entendi que o fim do passarinho passava antes pela renúncia dos prazeres, à Ameli, ao canto, aos adocicados sabores, e em dano a tudo o que há de belo, manter-se-ia a seco, como a dor.

Que triste vê-lo partir … Mas é apenas um passarinho!? Não, não é só um passarinho. É uma vida – toda, de passinho. Momento tecido no quintal e na memória. Não é somente sobre um passarinho: é sobre um modo de viver, de olhar para o entorno e de respeitar quem e o que coabita.


Hoje eu escrevi só. Nenhum canto e nada no ninho. Ameli não retornou. Nenhum outro sabiá cantou. Meu quintal está sem Adrio na maestria. A qualquer dia o quintal será palco para outras cantorias. Eu sei. Por agora, rascunho de par com a sábia natureza, que guarda pelo madrugueiro cantador. Cessa o canto, não a inspiração! Assim, a morte se inscreve na vida, talvez não com a leveza das penas de uma ave, mas como meio sublime de dar passagem a uma vida.


Amanhã será outro dia. A terra onde dormirá o Sabiá será um local de entrega e aconchego. Também gratidão. Sobre ela plantarei uma roseira miúda que crescerá com viço e alegria. De toda sorte, na próxima primavera, se não ouvir o canto, ao menos rosas alaranjadas haverão de brotar no meu quintal, e quem sabe, Ameli venha nos visitar.

Por um sabiá-laranjeira que nunca teve medo de se aproximar e conviver! Ele ensinou, com sua presença, que pertencer ao planeta é diferente de dizer que o planeta nos pertence.


Katia Bonfanti



Um quintal com limões, sabiás e inspirações...













 
 
 

2 comentários


luizctaraujo
luizctaraujo
10 de nov. de 2022

Já conheço bem a sensibilidade e a poética da nossa escritora, mesmo assim saborear seus escritos é planar sobre as coisas comuns e olhar a existência de tudo como algo inspirador.

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Valdecir José Algayer
Valdecir José Algayer
10 de nov. de 2022

Bem isso cara escritora...o domínio inteligente do planeta é fazer com que todos sintam-se parte dele, desde a minhoquinha até o grandão elefantão, não é pelo tamanho e nem pelo poder que se tem o domínio inteligente e sim pela leitura, pela sabedoria e entendimento das pluralidades territoriais dos povos do nosso todo, de todo o nosso UNIVERSO. Comentário de momento inspirado na escritora comovente, com suas lindas e emocionantes obras literárias...hasta breve.

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