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Espelho



O espelho é nosso companheiro e sempre será. Vemos nele as marcas da existência, as curvas, o brilho, o tempo... Porém, há contornos e curvas que não se revelam tão facilmente. A essência parece não apreciar espelhos. Assim, parte do que somos se mantém sob resguardo.

Ah, como somos enigmáticas até para nós mesmas. Vemos o quanto ainda nos desconhecemos toda vez que nos encontramos no espelho, na solitude. Embora não esteja na imagem, sabemos que somos mais do que contornos e linhas retratadas. E este par de imagens - externa e interna - nos constitui.


Gosto de pensar que não há mulher que, diante do espelho, não se encante com o que vê no eterno ato de se reconhecer - desconhecer. Nesta observação atenta da imagem - que não é tudo e nos diz muito - sempre há no espelho um lampejo, um desejo, um sonho a incrementar, nem que este se mova ao som de uma valsa lenta, mas está ali firme, pois, reside em nós.

Como disse Clarice Lispector, “sou tão delicada e forte. E a curva dos lábios manteve a inocência”.

Acho que Clarice escreveu esta frase para a mulher de todos os tempos, capaz de se encantar com o espelho - sem se resumir em uma imagem, apenas. Sentir alegria em ser mulher e viver a essência e as reviravoltas do nosso Ser tão intenso e delicado. Às vezes incompreendido em seus meandros, mas consciente de seu legado.


O espelho de Clarice faz pensar que a mulher é um ser ávido, que percebe a passagem do tempo, carrega no peito plumas da inocência e luta por espaço e respeito. Assim se torna monumental. A mulher monumento se refaz o tempo todo - porque sabe que é preciso seguir e perpetuar a história, imprimir marcas, proteger, gerar, formar... amar incondicionalmente.

É vital alicerçar a imagem dentro e fora do espelho, dar sentido ao que faz sentido: viver!

A mulher monumento se encanta com o que percebe em si, mesmo nos momentos tortuosos e áridos, porque a vivacidade e a leveza habitam o feminino desde sempre.

Curiosa, acende novas trilhas, desafia-se ao novo, ao ousado. Alia-se. Forma grupos. Descobre que a travessia se torna menos sinuosa quando acompanhada pelo afeto e pela poética do viver comunitário e fraterno.

Então, é aí que muitos dos enigmas se desvelam. Desabrocham em sonhos, em alegrias - pura volição e potência. Alegria de se tornar quem desejou Ser, sintonizada com outras experiências tão “delicadas e fortes” quanto as suas. Neste encontro de forças produz-se, assim, imagens reais do mais precioso espelho: essência feminina marcando sua existência no tempo.

Até o próximo “Café com Poesia!”


Katia Bonfanti

Psicóloga e escritora


Meus agradecimentos


Carmen, Daniela, Maria Teresa, Rogéria, Rosângela, Solange, Tatiana, Vênus

Café Ophelia

Beatriz, Helena

Créditos das fotos

Alice

Obras:

Coletânea Palavras 2023

Efusiva C'Alma de Caren S Borges






 
 
 

1 comentário


luizctaraujo
luizctaraujo
25 de out. de 2023

Li O Espelho. É prazeroso passear por entrelinhas de uma escrita que enaltece a sublimação. A gente sabe que a vida, em algum momento, nos constrange com agruras, por isso é imprescindível beber do cântico da poetiza, generosa e lírica. Congratulações à autora. Luiz Carlos Araújo.

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