Do português para o Inglês e vice-versa: a vida é mesmo um poema em diferentes sotaques
- katiabonfanti
- 17 de dez. de 2024
- 4 min de leitura
Atualizado: 12 de ago. de 2025

Palavras &Azeitonas: histórias no Mercado da Vila

Katia Bonfanti, psicóloga e escritora
O Mercado da Vila, numa manhã que misturava o rigor do inverno com a generosidade de um céu azul brilhante, negava o toque gelado do vento. O frio escondia-se nos passos enquanto o burburinho das bancas formava uma trilha sonora. Caminhava absorvendo aquele cenário até ouvir meu nome saltar da esplanada. Era Pedro acenando para que me sentasse a uma mesa com as pessoas.
Assim que nos cumprimentamos, percebi que a raridade dos momentos de miudezas, estava a se manifestar. E, o inesperado, nada banal, que minha prática no inglês seria fortemente desafiada – por nativos, mas isso era um mero detalhe. Entre capuccinos fumegantes e delícias portuguesas, Pedro anunciou com entusiasmo: “Peter é escritor e Judith é pintora.” disse ele já indo preparar outro café. Seria mesmo um encontro de miudezas essenciais para mim.
A comunicação com nativos da língua inglesa, sempre um exercício de atenção e sensibilidade, me convidava a atravessar o frágil equilíbrio entre o que se entende e o que se sente. Como psicoterapeuta, sei que as palavras, são as pontes que nos levam ao outro. Judith e Peter e eu nos entendemos na fala e em linguagem invisível, feita de pausas, olhares e gestos, a traduzir o que não poderia ser dito em palavras.
Quando nos comunicamos, não apenas trocamos ideias. Aprendemos, sobretudo, a nos entrelaçar na essência mais profunda da experiência humana. Estar ali, com os dois, ao acaso – tão ao acaso quanto o destino permite – foi um gesto de entrega às sensações que brotam no silêncio e na palavra, sem compromisso com a ordem ou o tempo. Apenas escrevo o que emerge, como quem apanha folhas ao vento.
Entre tantos modos de criar, o meu é seguir o rastro das emoções. Cada encontro é um mapa incerto, desenhado entre goles de café, ou de meia de leite, enquanto nos permitimos partir de um ponto qualquer das nossas vidas para desvelar quem somos.
Peter, com um sorriso tranquilo, não deixou de mencionar a forma como os brasileiros pronunciam "meia de leite" — uma suavidade que parece embalar o som. Falou também do nosso jeito de prolongar os verbos, o eterno gerúndio que flui bem em ouvidos anglófonos. Judith, por sua vez, contou-me sobre o trabalho voluntário que faz com muito gosto, ensinando inglês num projeto social em Cascais. E assim, o tempo se fez rio.
Peter riu ao dizer que, para os nativos da língua inglesa, o "está chovendo" dos brasileiros soa mais natural do que o "está a chover" dos portugueses. A língua, afinal, é um espelho de quem a vive: em inglês, "it's raining" carrega a mesma cadência simples, direta. Essas nuances abriram portas para outras lembranças.
Pensei, então, no podcast recente de Miguel Esteves Cardoso na Antena 1. Ele, com a leveza de sempre, dizia: “Adoro ouvir os brasileiros falando inglês. Eles se derretem.” E ali estávamos nós, entrelaçados por línguas, por culturas, por jeitos distintos de nomear a chuva e de beber o café, transformando o acaso em poesia, e o encontro em aprendizado.
Peter compartilhou seu percurso como romancista histórico. Ao ouvi-lo, percebi que escrever é, muitas vezes, um ato de reconstrução — como remendar a trama de um tecido desfeito pelo tempo, dando voz ao que foi calado e resgatando humanidade em meio ao caos. Lembrei das sombras dessas histórias que me acompanharam na infância, como ecos que nunca se desfazem. Hoje sei que, diante de um conflito, a verdadeira humanização pode florescer ou murchar, como uma flor entre ruínas.
O romance que escrevi — ainda guardado nas prateleiras da minha hesitação — fala de uma guerra que, como todas, dilacera a delicadeza da vida e semeia feridas que talvez nunca cicatrizem. Há algo de cruel e eterno na memória da violência, mas também uma beleza frágil no esforço de narrá-la, de dar forma ao que nos rasga por dentro.
O mais belo, contudo, foi o instante entre histórias e sorrisos: ali estava eu, tomando café com Peter V. Wright, o escritor britânico da série Lambs of War (Lost in the Shadow of Death e A Tempest of Death), e com Judith, sua mulher. Judith, com a serenidade de quem carrega mundos nos gestos, mostrou-me no celular uma de suas pinturas — uma composição que parecia tão leve quanto profunda.
Fiquei ali, imaginando como suas experiências como migrante se filtravam nas cores e nos traços. Era como se cada pincelada fosse um gesto de pertencimento, de reconstruir a si mesma no papel, tal qual as histórias de Peter davam voz ao que se perdeu. A pintura de Judith não era apenas imagem: era raiz e voo, era uma reinvenção que dizia, sem palavras, o que talvez nenhum idioma pudesse alcançar.
Por fim, nos despedimos, gratos pelo encontro. “O mercado é o melhor lugar de Cascais”, comentou Peter, com um sorriso leve, e eu só pude concordar. Ali, histórias se cruzam sem pressa, e as pessoas vêm não apenas para comprar, mas para compartilhar momentos que transcendem o trivial – como compartilhar o momento do café.
Naquele dia, àquela mesa, percebi que o cotidiano pode ser extraordinário quando nos abrimos para enxergá-lo. Há uma magia sutil no encontro, no tempo gasto sem urgência, como se o simples ato de estar presente pudesse revelar a beleza que costura os instantes da vida.
Prometi a mim mesma que mergulharia nos livros de Peter, deixando que suas palavras me guiassem através das camadas do tempo e do humano. E quando nos encontrarmos novamente no Mercado da Vila, quem sabe, talvez seja o momento de uma sessão de autógrafos, uma celebração à arte e aos encontros que nos transformam.
Porque como na rubrica Palavras & Azeitonas o melhor sempre está por vir! Salve, salve o café e o Mercado que me oportunizam tantas alegrias.




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