Catarina tinha um jardim com muitas pontes, mas não como as de Monet
- katiabonfanti
- 9 de out. de 2021
- 2 min de leitura
[...] Catarina sentia o gosto da moeda traduzida em funcho. Uma esfera metálica que se elevava sobre um caminho de sabor adocicado, transcendendo ao estado de felicidade.
Vamos ao jardim, Catarina? Pegue seu chapéu.
– Sim, vó. Estou indo.
Guardou as moedas na gaveta e correu por entre os cravos, lírios e margaridas. As roseiras eram as plantas que admirava com curiosidade e um certo cuidado. Sempre deixava as linhas do vestido presas aos espinhos, então, mantinha distância sempre que conseguia. Mas com o cachorro Bingo, estimulando corridas pelos canteiros, não tinha jeito, o vestido acabava preso nos espinhos.
Brincar valia o preço de desmontar em linhas – fio a fio, as coisas prontas para poder ver por dentro. Histórias e descobertas por um fio.
– Vó, por que as rosas têm espinhos?
Acho que para se proteger do Bingo e da menina que pisa no canteiro.
Oh, que triste pensar que poderia ser ela e o Bingo os motivadores dos espinhos da rosa.
Catarina se deu conta de que havia deixado um trilho de margaridas amassadas no canteiro. Preocupada, mostrou a Bingo o estrago e levantou cada uma das margaridas se desculpando pelo descuido.
– Por favor, sem espinhos, Margaridas. Vou cuidar melhor de vocês!
Ora, Nina, a vó estava brincando. Não é por tua causa nem pelo Bingo, é da natureza das rosas, espinhos. Eles aumentam a vida da planta, guardam água e assim elas vivem mais tempo.
Sentiu um aperto no peito ao ver a margarida, tão linda e tão frágil, dobrada sem uma gotinha de água para restaurá-la por dentro. Repousou os olhos na tristeza e de mão com a realidade escutou a voz acolhedora da avó que lhe dava uma explicação valiosa:
O espinho é uma gotinha de vida em tempos difíceis. E as flores são sempre abundantes quando cuidadas. Acho que é isso, querida.
Era bom saber que os espinhos não eram a raiva da flor, nem a tristeza. De qualquer modo cuidaria das margaridas.
Vovó e quando a margarida secar?
Surgirão novas. É sempre assim. Umas morrem e deixam sementes, enquanto outras florescem quando menos esperamos, como a rosa.
– Ah, entendi.
[...]
Katia Bonfanti

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