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Bruxas existem



Esta semana estive revisitando meus arquivos de escritas feitas ao longo de muitos anos. Entre eles encontrei histórias hilárias e muitas memórias de infância. Não por acaso esta visita tinha um quê de saudade e de comemoração.

Observar a passagem do tempo a partir das memórias que guardamos é também um modo de se dar conta da importância dos momentos, mesmo os mais breves. Sempre penso em aproveitar o instante como se ele fosse infinito, pois aquele fiapo de tempo pode carregar o mais belo florescer do nosso jardim de memórias.

Nesta memória às minhas escritas encontrei saudades que serão eternas as quais não tornarão a incrementar histórias, apenas mais saudade e falta. Os tais buracos com os quais todos nós hora ou outra iremos nos deparar e sentir. Aprendamos a conviver com tais infortúnios sem nos paralisar, pois a vida é finita e o tempo desliza feito areia dentro da garrafa de cristal. Vamos viver enquanto estivermos com o cristal intacto e com alguma areia a escorrer!


Nos meus vinte e poucos anos fui viver distante das pessoas que amo desde que nasci. E isso acorda as minhas borboletinhas no estômago ao querer vê-los, mas nem sempre é possível quando se voa fora do arrebol. Felizmente venho de uma família longeva então, até que o padrão se mostre estável, vamos vivendo e fazendo história, juntos, embora cada um no leu lugar. Minha mãe é uma destas amadas pessoas que vive perto embora longe. Ela apesar de ter tido um diagnóstico “bruxaria” há quase trinta anos, segue firme, e posso dizer, que é quase inquebrável depois do episódio da semana passada.


Para ilustrar as doçuras e travessuras de minha mãe, vou contar o episódio mais recente e que ocorreu uma semana antes dela completar 70 anos, ao final de outubro 2023, portanto raspando o Dia das Bruxas. Dona Eni Maria - e vou chamá-la assim porque se tratando de travessuras sabemos que o nome completo cai bem - envolveu-se em um incidente que por pouco lhe custaria bons meses de cama, se não coisa pior. Estava ela a andar na rua da sua cidadezinha e ao passar por uma rua onde meninos brincavam de jogar bola, o improvável aconteceu. Dona Eni, a bola e os meninos se embolaram literalmente e ela foi ao chão. Bateu com a cabeça e apagou. Foi aquele alvoroço. No final - como sempre acontece nas histórias da minha mãe - tudo acaba bem. Penso que as poções mágicas e a sapiência das mulheres sábias a protegem, sempre, sempre. Salve as ancestrais! Nada mal fazer aniversário quando os caldeirões estão a ferver para preparar a festa do ano, não é mesmo?


Com estes acontecimentos salpicados de "magia” sem querer vai ensinando a mim e a meu irmão, na prática, como um episódio com ares de tragicidade pode ter um desfecho positivo - e que sempre pedem a mesa farta para comemorar - mas não sem nos causar um impacto.

Meu irmão que chegou ao hospital em seguida ao acidente disse que foi chocante vê-la com uma espécie de “manga” na cabeça. Eu daqui de longe estava imaginando um galo convencional, mas não. Isso me fez rir, parte de nervoso, e outra parte da graça que ela consegue colocar nos fatos. É mesmo surpreendente e dada a acometimentos inusitados. Aliás estamos falando de uma mulher “expert” neste quesito de gerar acontecimentos e se divertir com os recontos depois.

É dela que herdei boa parte do meu gosto de estar com gente, fazer novos amigos e estar disponível a fazer parcerias. Foi com ela que tomei gosto pela escrita (as histórias do João Pedro e o exame de admissão), pela pintura, pelos preparos na cozinha... Pelas artes.

E como filha de uma quase bruxa, meio bruxinha é: adoro poções aromáticas – chás e ervas para beber, perfumar e ilustrar.


Entretanto, a saudade da minha mãe inventiva é arrebatadora. Neste ano estou ainda mais longe geograficamente e acho que um dos únicos anos que não comemoramos nenhum dos aniversários de família juntas. Nem o meu, nem o dos meus filhos e nem o dela. Então, dediquei-me a regar as alegrias que plantamos em nosso jardim. Vem de Cora Coralina algumas palavras que parecem nossas “Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e plantas roseiras e faz doces...” Doces são o nosso ponto fraco. Dona Eni é uma doceira de colher cheia e vive mexendo o caldeirão a preparar gulodices para ela e quem estiver por perto.

Mas pintar com ervas, comer tortas e revisitar histórias não diminuiu a saudade e a falta que foi não estarmos juntas nos aniversários deste ano, porque COMEMORAÇÃO poderia ser o terceiro nome de dona Eni. Porém, meu sentimento é de estar muito perto, embora eu ande pela cidade, pelos cafés e não a encontre, passei o dia do seu aniversário envolvida nos preparos e poções.

Pintei com ervas e especiarias como modo de homenagear, comemorar e agradecer por sua existência. Seus 70 anos de um viver intenso e corajoso. Dona Eni Maria - Comemoração - é um exemplo a respeito da vida: resistir, cair e se levantar, viajar e retornar, adoecer e se recuperar. Desbravar o desconhecido e não se apequenar diante dos devires. Repaginar, remodelar e enfrentar o que tiver de vir.

V-I-V-E-R.

Ah, e consta nas páginas da história que minha mãe é uma tal bruxa contemporânea, que só voa abordo de aviões - bem sossegada. Isto porque logo antes de fazer 70 anos decidiu contrariar com todas as suas forças os “bons conselhos” dos aparentados, deixando a vassoura só para o cuidado da casa. Sim! Minha mãe é uma bruxinha quebra-regras que adotou um Volkswagen para voar as tranças pela cidade.


Feliz aniversário o ano todo, minha bruxinha favorita!




 
 
 

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