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Bocas

Atualizado: 1 de dez. de 2024


Acordei

Emudeci

Vi-me desconfigurado

Configurado em grades, esquadrinhado

Vi nascer e morrer meu mundo

Quadros vazios e distópicos

Distopia, aliás, é a realidade

Perdi minha imagem

Numerais me definem

Adormeço para ver se esqueço

Perco-me do que encontro

Sofro dobrado, sonho ao quadrado

Chagas me enlaçam

Abraços me faltam,

Esmaeço

Bocas se abrem em meu corpo

Não proferem palavras

Nem as tenho para responder

Ouvidos escutam gemidos

São minhas vísceras a chorar

Vociferam, aos soluços, a agonia que sinto

Perdido, esmoreço no quadro cinza gélido

Encarcerei meus planos, trancafiei meus voos

Aspiro asas em mim

Cobiço a alma de volta ao corpo

Desejo entrever a liberdade

Delirante, durmo no pesadelo

E vivo no sonho

Espero o fim.

(Katia Bonfanti, 29.10.20)

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