As mulheres do chá
- katiabonfanti
- 29 de mai. de 2022
- 2 min de leitura
Atualizado: 7 de jun. de 2022

Certa vez duas mulheres conversavam à beira do caminho, trocavam palavras ao vento. – Estou indo para outro lugar. – Eu também estou a me transformar – disse a outra. – Quero sentir o gosto de mundo – disse a primeira. – Eu ferverei as folhas para sentir ainda mais o gosto das palavras – completou a outra. E se foram, cada uma por um caminho, recolhendo as folhas cheias de palavras. Entre elas, o vento espreitava disfarçado, nos fios dos cabelos. O astuto, enleado nos douro-acastanhados, escutou algo que havia escapado das bocas - as borbulhas que as ungia.
As duas seguiram colhendo por jardins e trevas, céus e penhascos, cada uma acrescentando as folhas no seu bule de fervura. O vento, habilidoso em espreitar pelas frestas, um dia decidiu abrir o livro dos abraços e retirar das folhas dele, palavras que conduziriam a um lugar cheio de aromas, essências, afetos e suspiros. Sabia que as duas colheriam tais palavra para encorpar as borbulhas da alma. De posse das palavras mais inspiradoras, soltou-as como se fossem ladrilhos. Sem demora, surgiram as duas mulheres recolhendo as folhas. Comemoraram o encontro àquela altura do caminho.
Sentaram-se e serviram-se de seus bules. Não eram bruxas nem fadas, mas sabiam fazer poções mágicas e enlevar a vida. Com a caneta em punho, tiravam de seus preciosos extratos, belas histórias. Liam e ofertavam suas palavras para que outros lessem.
As duas com seus bules bem incrementados de folhas e versos, contavam com a esperteza do vento. Enquanto recolhiam mais palavras das folhas, encontraram outras mulheres com seus bules à beira do caminho. Haviam chegado ao lugar-mundo - aquele borbulhante que vivia dentro de seus bules. Surpreenderam-se ao sorver o líquido contido em seus invólucros e mais ainda ao compartilhá-los com outras mulheres que faziam poções tão saborosas e inspiradoras.
Brindaram e agradeceram ao vento por espreitar almas criativas e promover encontros extraordinários. Agora de tempos em tempos as mulheres que habitam o “literamundo” levam seus bules trasbordando extratos, se aproximam com generosidade, saboreiam as suas essências, enquanto desprendem das folhas os seus melhores versos.
E o vento? Ah, ele seguiu tramando fios de certeza de que havia muita ebulição prestes a irromper em palavras dentro das mulheres que consumiam folhas. O transbordamento do extrato em poesia era só uma questão de tempo.
Inspirações:
Encontro das mulheres escritoras AJEB e Ítalo Calvino - Fábulas italianas
créditos das imagens: Caren S Borges
Local: café Shakespeare. Moinhos de Vento. Porto Alegre - RS
28/05/2022



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Lindas palavras. Katia.. palavras criam histórias e nos transportam para mundos imaginários, quando o real não está tão satisfatório como gostaríamos.. hehehe..