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Alma de borboleta

Atualizado: 22 de mar. de 2022




Katia Bonfanti


Um dia

Saí a andar

havia algo a faltar.

Uma parte de mim

batia em outro lugar.

Eis que um ventinho soprou,

então eu olhei...

Ah, as asas literárias

estavam a me esperar!

Em momentos especiais, detalhes fazem a diferença. Então, reservei a escrita de mais um trecho do “Jardim de Catarina” com o encanto e a delicadeza das flores como metáfora para ilustrar a busca pelas gotinhas de viver e, sem medo, vestir asas poéticas em tempos que aspiram cuidados. Os encontros ainda exigem distância, mas estamos mais encorajados a voar. A experiência de tornar a ver pessoas, de sentir o cheiro delas e de compartilhar a alegrias ao vivo está mais possível. Voei! Asas que permitiram voar pelo Moinhos de Vento numa noite cheia de encantos é como o voo da borboleta que se enamora pelos canteiros, abre e fecha as asas ao pousar, voa para qualquer lugar. Vida acontecendo!

Andar pela noite iluminada, depois de tanto tempo, foi indescritível e inenarrável.


[...] Guardou as moedas na gaveta e correu por entre os cravos, lírios e margaridas. As roseiras eram as plantas que admirava com curiosidade e respeito. Era comum ter as linhas do vestido presas aos espinhos, então mantinha distância sempre que conseguia, para não enroscar o babado. E corria, imaginando que voava, com o cachorro July de parceiro. O vestido sempre acabava preso nos espinhos. Brincar valia o preço de desmontar em linhas, fio a fio, o tecido, para poder ver por parte. Doçuras descobertas no desfiar, desmontar, descrever e reescrever. (Jardim de Catarina)


E o jardim, Catarina?

– Ah... viver é cultivar o jardim para desfrutá-lo com a leveza de uma borboleta!

Os tempos voaram nas asas do vento e, nos últimos anos, os jardins precisaram ser ativados como nunca. Rosas, cravos, camélias, margaridas e miosótis precisaram buscar a gotinha de vida reservada para tempos de secura. Os conceitos de “morte” e “morrer” nunca foram tão aproximados. As moedas que o avô de Catarina costumava reservar na gaveta para momentos derradeiros não seriam necessárias, porque os olhos de quem se foi haviam se fechados dias antes, por falta de ar. Muitos dos que ficaram não souberam para onde olhar. Alguns encontraram uma imagem ou um São Jorge e idolatraram, outros relutaram a acreditar. As casas viraram os únicos canteiros onde se cultivar jardins. Muitos floriram, outros sucumbiram. Os que floriram, descobriram histórias dentro de si. Talentos guardados nas gavetas da alma afloravam criativos. Sublimação.

As lições de negociar foram muito necessárias na vida em comum. O planeta inteiro redescobriu significados de mesa e de janela. As janelas revelaram paisagens inusitadas antes não desfrutadas. Algumas mesas se encheram de bocas. Outras esvaziaram-se de tudo. Face dolorosa e sombria.

Em enfrentamento, os espinhos brotaram em cravos e margaridas. Transformação – sobrevivência ou morte!? Tantas aflições... mas havia a criação-escrita para o transcender diante da crise.

Retomar a seiva e reinvestir em novas florações – recompor os jardins, trocar sementes, mudar o tom – se fez urgente. A semeadura de novos modos de vida vencera o inusitado. Grupos de amigos só vieram a se encontrar meses depois, contudo se viam nas “janelas”. Estranho? Não. Nasceram novas configurações de socializar nossas alegrias e angústias. Ilustrações e gráficos assustam, mas a poesia liberta. Viver o inesperado transfigura estados de inércia aos quais nos habituamos, porque, para além da dor, há inteireza e crescimento. As experiências, em qualquer etapa da curva, transformam, e os abalos fazem pensar ainda mais no que se quer e no que se pode fazer. A escrita, afetuosamente, me levou para passear. A poesia, mão doce e lúcida, fez pensar no instante, como fez Cecília Meireles, em seu poema Motivo:


Eu canto porque o instante existe

E a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

Sou poeta.”


E eu alço voo vestida com minhas asas.

Elas se movem porque “o instante existe.”

É nele que habito o meu universo lírico.

O Jardim surge nos instantes vívidos.

Katia Bonfanti


Das palavras surgiram asas. Asas parecidas com as que Catarina ousou ao voar em seus canteiros de miosótis, margaridas e roseiras, na sua tenra infância. Porém mais firmes e para voos mais altos.

Poesias e narrativas são como canteiros de plantas bem nascidas, floridas, com palavras soltas para quem possa alcançar sentimentos múltiplos, vibrantes e, às vezes, até secura e palidez. Sim, desbotamentos também acontecem, especialmente quando nos deparamos com turbulências, preconceito e intimidações. Há quem não queira ver que isso acontece por sermos mulheres e escritoras.

Entretanto, importa escrever, dizer o que sentimos e deixar o verso fluir, se conectar com alguém em outro lugar. Fazer cantar ou silenciar. Das mãos de quem escreve vigoram palavras aladas, que voam, que encontram lugar para se aninhar e universos para incrementar. Ninguém permanece igual depois de correr e dançar com as palavras que borboleteiam pelo caminho.

Abrir espaço para a leitura-escrita entrar é algo que fazemos quando sentimos na pele o que o outro diz. Quando nos entregamos a ele, a esse outro que escreve, enquanto bebemos de suas palavras. Ato voraz que salva. A escrita é um ato de libertação que faz emergir das profundezas a voz da alma. Existência rascunhada além do tempo vivido por quem escreve a palavra.

Quando brincava no jardim, não pensava em escrever, apenas em correr pelos canteiros floridos e, nas luas apropriadas, plantar. Naquela natureza germinativa residia a beleza que tomava meu olhar. Mas chega o tempo em que as sementes esperam por canteiros para além das jardineiras. Estava sensibilizada pelo sentimento de fazer brotar no papel o que guardava em experiências. E sentimentos, exigem passagem. Viajar em histórias e criações são modos saudáveis de deixá-los ir. Entendido isso, e, se houvesse tempo, me sentaria com Rubem Alves para dizer que completaria sua frase: "sentimentos são pássaros em voo"– vestidos de beleza, têm asas de pássaro, de borboleta, de libélula, e alçam voo de qualquer lugar-papel, quando lidos. Assim eu completaria.

A escrita se torna beleza em forma de sentimentos para mim e para outras que há séculos iniciaram suas trajetórias ajardinadas pelo mundo, sem sucumbir às crise, sem se constranger nem calar com a ausência de reconhecimento do menor ao maior grau. A beleza, na escrita, repousa no modo de olhar, de dizer palavras que fazem pensar, que retratam o viver, que falam do interdito, do proibido, que enaltecem a criação nas suas mais variadas formas. É sob a voz feminina que se reconhece o verdadeiro empoderamento. Embora apenas 16 mulheres tenham sido laureadas pelo Nobel de Literatura em mais de um século de edições, estamos aqui com a mesma coragem e a mesma sensibilidade, escrevendo ladrilhos de esperança, semeando jardins, fazendo brotar espinhos para guardar gotinhas de viver, voando hoje e sempre.

Seguirei experimentando pequenos percursos literários no jardim de Catarina como "A borboleta..." que, por saber da brevidade da vida, aposta na felicidade surgida de um espírito imorredouro, esperançoso, capaz de iluminar as escurezas da existência. Sinto-me honrada por assumir a Vice-Presidência de uma organização com quase meio século de história escrito por mulheres brasileiras.

Obrigada, AJEB/RS, pelo carinho, pelo reconhecimento e, sobretudo, pela confiança!



Separei fotos que contam um pouco sobre ter "alma" de borboleta.

Escreva seu comentário, depois da sugestão de textos. Vou adorar ler!!





 
 
 

8 comentários


Lucia Oliveira
Lucia Oliveira
22 de mar. de 2022

Maravilhoso 👏👏👏👏

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luizctaraujo
luizctaraujo
22 de mar. de 2022

Os poetas são mesmo borboletas que colorem e enfeitam a vida. Suas palavras de candura têm arabescos e movimentos que até a gente se perde; mas se acha no perfume das flores visitadas. Parabéns, Kátia, pela posse, pelas poses e pelo poder que toda mulher tem.

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katiabonfanti
katiabonfanti
22 de mar. de 2022
Respondendo a

É uma honra receber comentários de um historiador e romancista como você, Luiz Carlos Torres Araújo. Que bom saber que depois de perdido nos arabescos, te encontraste no jardim. É sempre um bom lugar para ver a vida acontecendo. No jardim li teu último livro "Os Condenados". Já no aguardo do lançamento do próximo. Obrigada. Um abração. 😍

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Ademar Francio da Fontoura
Ademar Francio da Fontoura
22 de mar. de 2022

Kátia querida, sempre se reinventando com sua alma de poeta, para semear alegria, esperança no jardim de nossas vidas

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katiabonfanti
katiabonfanti
22 de mar. de 2022
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Obrigada, Ademar. Você é um bom semeador de esperança. Ao ler teu livro pude sentir isso. Um abração

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Pedro Allgayer
Pedro Allgayer
21 de mar. de 2022

As asas da borboleta, dão a ideia da liberdade do poeta em soltar sua imaginação. Sem mordaças nem pressão. . hora aqui hora acolá. . segue o rumo da imaginação, não é chegada..mas uma longa estrada.. Ah as flores. . elas que enfeitam e perfumam nossa vida e nossa caminhada...

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Rodrigo Fagundes
Rodrigo Fagundes
21 de mar. de 2022

Katia! Meu respeito e minha parabenização à ti pela escrita potente em beleza de vida, das imagens palavreadas; pelo espaço honroso ocupado e pelo interesse importante em levar aos diversos leitores e ouvintes textos jardinados, com terra arada e plantinhas com o viço acentuado pelo cuidado carinhoso.

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katiabonfanti
katiabonfanti
21 de mar. de 2022
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Obrigada, Rodrigo. Seu comentário veio vestindo asas poéticas, no 21 de março, dia Mundial da Poesia. Um abraço.

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