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Abrindo as gavetas para "Ganhadeiras"


Um dia destravei a gaveta secreta. Libertei as moradoras, adormecidas, palavras escritas: Voem por aí!! Encontrem outro lugar. Digam a quem as encontrar que as palavras escritas precisam ser lidas e trasformadas por quem as lê... nunca se sabe ao certo onde uma palavra lida vai parar... Pode-se imaginar :

Cada palavra escrita diz de um lugar. Cada palavra lida faz pensar. E para tanto é preciso ter coragem, ousar.


E daquele dia em diante, elas se foram. Não as perdi. Pelo contrário, ganhei com elas tantos espaços. reconhecimento e afetos. Foi assim com "Ganhadeiras", meu poema publicado na Coletânea Palavras 2021. Uma lisonja estar entre escritoras (es) talentosas (os), falando do ser mulher, ontem, hoje e amanhã...




Ganhadeiras


Lá vem elas com o turbante florido.

No olho um brilho assumido de flor e sentido.

No corpo a dor das mãos do possuidor.


Mães lavadeiras, deixam a água correr, lavar uma vida inteira.

Retornam, almadas, faceiras. Não se afligem nas corredeiras,

são fortes, são rezadeiras.

Lá vem elas com as saias rodadas, nas entranhas, flor bem rendada.

Mulheres de almas ajardinadas, de ganho e luta desarmada.

Resistem.


Levantam-se à frente da aurora, semeiam na madrugada.

Dançam na água prateada, lapidam seu ofício sob os raios dourados.

Desprendem-se do horror do ontem, nutrem-se com o vindouro amor.


Lá vem elas, como sua luz estandarte, aspergindo Axé!

Brincam, cantam, Catimbó, Candomblé, Oxalá.

Rodam a saia na Gira, transcendem entidades.


Vestem a proteção de Xangô,

banham-se nas águas de Iorubá.

Iansã e Oxum são doces-orixás.


Trabalhadeiras, guerreiras, mulheres de artesania.

Elas benzem, vivem, sambam na ponta do pé.

Choram o arroz de sobra e festejam o acarajé.


Espelhadas nas águas, soltam asas palavras, desenlaçam graça ao andar,

Maria Firmina dos Reis, Carolinas de Jesus, andarilhas além fronteiras,

sopram entraves, escancaram o Quarto de Despejo,

Assoviam Cantos à Beira-Mar, entregam lágrimas à Mãe das águas, Iemanjá.


Harriet, Dandara, Marielle, alfaqueque, trilheiras.

Mensageiras de paz em guerra, mulheres símbolo.

Resistência da América a União dos Palmares.

Amefricanas contemporâneas, silenciadas todos os dias.


Mulheres que sacolejam, dobram o dia, ganham a vida somando contos.

Trabalho da Umbanda a toda fé.

Mulheres, mulheres, carregam rebentos, provém sustentos.

Olhos sempre atentos, há corpos a alforriar.


Mulheres de história, seres de carne e osso, de sonhos e de virtudes.

Em face do espanto, trespassam os árduos desgostos, levantam-se.

Mulheres que se foram, mulheres que aqui estão.

Rascunham a vida em versos, cantam abraços.


Mulheres de muitas tintas, de infinitos amores.

Ancestralidade viva. Mulheres-lumes.

Farfalham a alma de todas nós. Se todas juntas, nenhuma a sós.


Katia Bonfanti





 
 
 

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