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A voz das borboremas


Katia Bonfanti


A madrugada chegava serena em uma dessas noites, quando a velha sábia da alameda tocou com aflição a vidraça. Bem, havia chegado a hora de salvar o texto e ir dormir. A sábia árvore que espreita minha jornada está exuberante e verde, sem nenhum sinal de outono — me alegra perceber que ela decidiu prolongar seu verão, contrapondo os ritmos do quarteirão ao lado, já com seus tons outonais em cena. (Talvez queira dizer a todos que esticar momentos aquecidos e alegres de verão faz bem.) Quando se recolhe, as folhas espelham as raízes imóveis, como se estivessem em um estado de meditação. Recarrega sua seiva para a próxima jornada.


Ela eventualmente se aflige com a luz da minha tela. Toca o vidro com sutileza e me faz pensar no seu lugar. — Ela quer desligar seus fotorreceptores. Supõe-se que a luz azul faça parte do dia, e não da noite. Entretanto, naquele fim de madrugada, ela estava revolta, com as folhas abertas, como se quisesse permanecer alerta — o que queria me dizer? Queria me chamar para ouvir o vento sibilante? Optei por desligar, em parte, a escuta para fixar e organizar as gravações internas.


Fechei o ecrã. Antes de sair da varanda, o déjà vu do Minuano tomou minha pele. — Ora, ora, o vento fresco do Norte fez lembrar o Minuano. Vento que sopra noutro continente, na porção mais ao sul do mapa da América Latina, fica além do oceano Atlântico. Lá, o cortante faz a entrada do solstício de inverno, ressoando o assovio dos Minuanos — um povo originário das regiões fronteiriças do Rio Grande do Sul (Brasil), Uruguai e Argentina. O silvo longínquo dos Pampas vem vestido de secura, sopra forte e apressado, como quem tem pouco tempo para levar a mensagem aos confins do continente: pegue o cachecol, vivente! A massa polar da Patagônia chegou. Não há quem não sinta uma pitada de melancolia com o som desta corrente de ar.


O Minuano tem o poder de fazer surgir todas as memórias gélidas dos sulistas. É um evento de respeito, que faz os baús das lãs se abrirem, as despensas se encherem de lenha, o borbulhar dos caldos a perfumarem as cozinhas, enquanto o tom vermelho-alaranjado crepita a rolar na paisagem.


E há outros sons invernais que o vento frio evoca: os sons das curvas na Rota Romântica, o burburinho dos amores, o estampido da rolha dos vinhos nos encontros em volta da lareira. Os estalos do fogo de chão enquanto o mate ronca na mão de um gaúcho lisonjeiro, a ritmar o salto da bota, como um marcador de tempo, a contar o ponto de seu churrasco. O universo sonoro é vivo e constante, presente nos instantes das nossas experiências e lembranças. Nos compõem porque somos seres históricos e de relações com o meio. Com uma ressalva: ouve-se o entorno quando sem barreiras auditivas postiças — os tampões contemporâneos, bloqueadores dos sons do entorno, impedem que os momentos sejam orquestrados pelo lugar de paragem ou passagem.


Memórias à parte, porque a minha varanda, vizinha da velha sábia, fica a muitos quilômetros de distância do Minuano e de todas estas amáveis recordações. Aqui, quem assovia vem de outros ventos. Tem as gaivotas, o som constante do mar, o alarido das múltiplas línguas a passear pela rua, o som de seu Joaquim, o afiador de facas, que surge todos os sábados de manhã, as nortadas de verão... Se estivéssemos na altura do inverno boreal, o que sopraria lá fora seria a brisa marítima, entremeada de correntes vindas do Norte da Europa, a me fazer lembrar do Minuano.


No entanto, o vento ainda ameno do Norte, sacudindo a velha sábia, trouxe-me lembranças duradouras, senão eternas, do Sul, e formou outras do Norte. Vivemos cercados de ruídos — barulhamos o tempo inteiro. Entre tantos outros elementos, os sons naturalmente aderem às experiências humanas, simples e cotidianas. E há ainda aquelas inesquecíveis que rondam os dias incríveis, como os dos nascimentos, os dias fatídicos em que enterramos nossos mortos, aqueles dias em que sobrevivemos por instinto e necessidade, ainda outros em que sobreviver é pura sorte... Nossos dias ímpares da vida complexa. Todos estes são inscritos sob a sonoridade indelével do tempo e do envolvente.


Como o vento de qualquer origem, o imperioso som das florestas, o canto das aves, o tilintar dos riachos, o chuá das cachoeiras e o irretocável e ondulante barulho do mar. Todos esses eventos compõem nossas vidas. No entanto, nem todos os sons nos chegam à percepção, mesmo sem bojos a tapar o ouvido. Há um troar contido, imprevisível e trepidante, ocorrendo logo abaixo de nossos pés, sem que percebamos a dimensão dele. É ativo em diversos pontos da terra. Ontem, passou no ponto do Planeta onde eu vivo, e sua atividade me fez escutá-lo.


No dia 26 de agosto de 2024, dia do sismo, concluí que desconhecia a verdadeira força da Terra. Esta gigante onda de energia sísmica cresce assustadoramente sobre nossos ouvidos, um ruído semovente que galopa por entre os rochedos. Som que se levanta dos interiores mais profundos da crosta terrestre e, trépido, sacode, com a facilidade com que sacudimos uma toalha ao pôr a mesa, tudo o que vem pela frente: o mar, as falésias, as bases firmes do solo, as nossas casas, os nossos objetos..., as previsões científicas, as certezas e tantas outras coisas. (Sacode até as nossas decisões e emoções.)

Às 5h11 da madrugada, não se ouviu som de vento, nem das folhas das árvores da alameda, apenas o trovão sísmico, abafado e crescente do chão. Um terremoto de emoções sacudiu meu estado de alerta. Não era zonzeira de labirintite, nem de vinho do Alentejo, nem de Chianti. Era o movimento expressivo de grandes blocos rochosos, o produtor do abalo do meu equilíbrio. A trepidação que nasceu nas borboremas do mar tornou-se inconfundível. O ajuste das crostas se fez ouvir por quilômetros.


Por quarenta segundos, somente o sismo imperou. E foram longos e inquietantes segundos. Confirmei: eu estava na linha do terremoto. O som desconcertante, acompanhado do tremor, tornou-se, naquele instante, uma tatuagem na minha memória. Um desenho feito em silêncio, enquanto o prolongamento da onda sísmica se propagava sob meus pés. Nesta fresta de tempo, coube minha vida inteira, como um filme rodando em alta rotação, talvez na velocidade do sismo.


Respirei em suspensão, a pensar: e o plano de fuga? Não estava feito! E a tal mochila de pertences? Não arrumei! Para onde correr? Nem há tempo. Não fiz nada além de esperar para ver..., torcendo para que a casa suportasse. Em seguida, meus pés no chão pararam de trepidar... O ruído cessou. Tudo permaneceu intacto. A onda trepidante desfez-se lentamente, e eu inspirei pura apreensão. Residia ainda a incerteza das réplicas e do temido tsunami, tema das mídias (que sempre são associados ao terremoto que destruiu Lisboa há 260 anos, o maior da Europa?). Um estranho sentimento de saber o que se passava, sem acreditar que era real, embora fosse.


Impressionante como a Terra tem seus movimentos sob resguardo, impedindo que sistemas de “espionagem humana” sejam capazes de precisar quando e qual será o impacto do seu próximo deslocamento de crostas. Viveremos em relativa tranquilidade, deixando em suspense os mistérios da grande Mãe, a mesma que nos assegura um lugar para viver e atua em movimentos “invisíveis”, potencialmente devastadores. E somos parte de tudo isso, inclusive devastadores em tantos aspectos.


Eu, acordada, pensando em tantas coisas: que os terremotos produzem ondas que são captadas pelos animais antes de o tremor de terra acontecer. Mesmo as tecnologias mais avançadas, como a Inteligência Artificial, não conseguem igualar esse instinto natural. Essa é a condição, ou talvez a evolução, de cada elemento no planeta, onde os seres vivos ainda possuem uma sabedoria que ultrapassa as criações humanas.

Lembrei-me dos elefantes da Ásia; não somente eles, mas outros animais das regiões atingidas também escaparam do maremoto. Faz sentido pensar que, em um sistema vivo e interconectado como a Terra, tantos seres entendem de modo orgânico as mensagens subjacentes de alerta sobre eventos climáticos.


Por fim, amanheceu mais um dia. Abri a janela. A velha sábia balançava com suavidade seus galhos sob o céu azul. Presumo que ela seja um destes seres, e que na noite passada suas raízes tenham recebido as mensagens das profundezas, deixando-a em alerta.

Retorno à calmaria que escolhi para viver. Preparei o café com gosto de coragem, temperado com canela. Tudo na medida, para reacender o ritmo de bem-querer. Talvez tenha sido apenas um abalo passageiro, desses que o tempo traz a cada sessenta anos. Quem sabe!? O que sei é que meu repertório de sons da natureza está mais alargado ao registrar a suntuosa e perturbadora voz da Terra.


No futuro, ao recordar este dia, quero guardar na memória o abraço do vento fresco, a conexão com a velha sábia, as emoções positivas que o café com canela traz e este registro atemporal, onde o presente se eterniza na suave lembrança (às vezes tensa e ainda mais se vinda das borboremas da Terra).


Fim da história... desafio a inércia e caminho para escutar o mar.









  Uma perspectiva da velha sábia.

 
 
 

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