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A velha sábia da alameda




A velha sábia da alameda - tintas ao primeiro sopro

Katia Bonfanti

O azul celeste beijava os ramos secos da velha árvore, enquanto, sem nenhum alarde, a primavera estava a trabalhar nas pequenas gemas dos castanhos ramos. Tudo acontecendo à luz intensa, numa velocidade quase imperceptível se não fossem as marcas das fissuras por onde o verde espreitava a luz, pronto a devolver o beijo ao céu. Enquanto isso, no alpendre com vista para a alameda, em meu compasso costumeiro de ir e vir nas linhas, esperava brotar uma escrita. Não uma escrita com a velocidade com que a primavera coloca os brotos à mostra, mas com vontade de ter a iluminação do dia nas palavras. De ter as ideias acesas e aquecidas pela chegada da estação das flores no hemisfério norte.

Árvores são seres que deixam passar por si tantas outras vidas e, portanto, tantas histórias e incontáveis estações de paragem. Cada uma delas - embora ainda tomadas pelos tons invernosos - abrigam as primaveras em suas raízes... florescer é o único horizonte. Nenhum entristecer aplaca a força que dormita nas raízes e não há nada que a impeça de folhar, a não ser a morte.

Passadas lentas até romper a casca... O verde que espreitava ontem, agora imprime um discreto tom nos ramos acastanhados. Observo. E nós duas nos encontramos no alto do alpendre para confessarmos nossas esperas e impressões do tempo que deixamos em nossas folhas a cada novo ciclo - em carne viva. Experimentamos o desapego de nossas cascas só porque acreditamos na força que habita nossas raízes. Conversamos sem embargos, sem palavras, sem culpas e sem mistérios. Somos o que somos...mulher e árvore.

Enquanto enlaçamos olhares, sinto-me observada pelos pequenos caroços da brotação e, é assustador, pois são numerosos. São belos mesmo sendo nódulos. Há ali a urgência do existir. Disfarçados chegam muito perto do alpendre, quase tocam o guarda corpo. Estariam os ramos trazendo o beijo do céu a mim? Que lisonja! Por que faria a mim tal honraria? Ou será que a grande árvore quer desvelar as minhas raízes e primaveras? Se for assim, é certo que os ramos acastanhados querem lamber meus olhos e beijar meus dedos...Não, somente! Ela quer de mim um retrato de cada movimento, imperceptível, de seu florescer. Uma cartografia de sua pele. Uma poesia de cada rasgo doloroso no seu lenho. Um bilhetinho que seja de cada broto frágil que trepida com medo do vento. Ela quer que eu registre cada folhinha encabulada diante da luz, quer ser parte, nomeadamente viva, de minha primavera - meu agora. Ela quer ser meu par!

E, eu tão plena de palavras, fico muda. Um mutismo, eu diria, escandaloso porque dentro de mim jorram seivas e versos. Todos os versos em verdes palavras circulam vorazes, abastecendo meu ser. Alimento bruto a transformar-se em esperançoso ciclo. Com a folha na mão espero que a árvore da alameda conduza nas linhas uma escrita somente minha e dela. Quem diria, que a gentil casa - mãe, ainda despida de sua roupagem, quer que eu a imortalize - seu quadro de nudez - antes que seja tarde.

Por fim, as palavras surgiram no papel. E era só o início para nós duas. Eu e a sábia árvore conhecemos nossos invernos, deixamos cair cada folha, reforçamos nossos ramos e com olhos acastanhados, brilhantes, olhamos na direção do cimo. Nas raízes levamos nossa paleta de tintas para, no primeiro sopro primaveril, deixar a tinta escapar pelas frestas, enquanto o melro – preto canta para tecer o ninho e melodiar as nuances da escrita ... No alpendre da alameda tudo retoma ao compasso. Lentamente, eu e ela, escrevemos nossas passadas. A folha de papel abandona o branco, enquanto a primavera trabalha indelével sobre nossa pele. Florescemos em tinta fresca.



Pintura da capa - acrílico sobre tela - Katia Bonfanti, 2023


 
 
 

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