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Palavras & Azeitonas - A Serviência do Fado

Atualizado: 12 de ago. de 2025


Cantores de rua - midia wix
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A Serviência do Fado - Palavras & Azeitonas


Por Katia Bonfanti, psicóloga e terapeuta sistêmica


Um dia destes, ouvindo uma entrevista em um canal de rádio de Lisboa, fui surpreendida por uma frase do entrevistado: “O fado é música que não se dança.” Não se dança?! Tenho que saber mais sobre isso? Pensei. Nem um balanço tímido, nem uma oscilação involuntária, daquelas que nascem de um pulsar compartilhado entre música e corpo? O fado, sendo emblemático e popularmente conhecido em Portugal, seria como ouvir Chico, Elis, Caetano ou Gil... sem que o corpo respondesse, ainda que num sutil bater de pés ou num rítmo dos ombros. Será possível que o fado não mova, nem mesmo, um eco nos espaços vazios dos corpos?


Perguntei-me se haveria uma função do fado para além do movimento. Um lugar que fosse mais fundo, mais próximo às frestas onde guardamos o que não se pode dizer. Há poucos dias, enquanto tomava meu café no Mercado, conheci o Sr. Rolo, um português que, em 1960 e poucos, com apenas vinte anos, partiu para a tropa, destinado a combater os chamados terroristas na Guiné-Bissau. Ele não era apenas João Manuel da Silva Rolo. Era um artista do cotidiano, “armado” de voz. Naquela Guerra, conheceu outra arma: a G3, um equipamento de combate que o acompanhava tanto quanto o peso do cansaço e do medo. Durante três anos de combate, Rolo suportou momentos que deformaram o tempo — fragmentos que, nas palavras dele, “ainda sangram, mesmo secos.”


“A Guerra é triste... muito triste.” Sua voz encolhia. “Vi coisas que demoraram muito para sair da minha cabeça. E algumas nunca saíram.” Ele mencionou copos cheios de vinagre, onde flutuavam restos humanos: dedos, orelhas... Uma memória ácida, encarnada no detalhe cruel. “Passei anos sonhando com aquilo. Minha sorte foi que os ferimentos físicos foram pequenos, queimaduras no peito, nada demais. Mas a mente é complicada. Ela não esquece.”


Há um tipo de sono que é mais profundo que o corpo, mas ainda assim mais raso que a alma. Um estado intermediário que não é capaz de amainar a mente, muito menos apagar as imagens torrentes. Para o Sr. Rolo, os pesadelos vinham como sombras tangíveis, arrastando-o para baixo da cama. “Chamava minha mãe, e ela vinha. Eu dizia: foi um sonho. Aí eu voltava a me deitar, mas o sono demorava… muito tempo, às vezes não vinha.” O Sr. Rolo, como o Sr. Alberto que conheci outro dia – que trazia nos olhos o peso do chumbo, fazem parte do quadro de guerra. Uma herança que basta estar presente, nem precisa ser no front, para ter de carregá-la para sempre.


Entretanto, entre as tragédias, o Sr. Rolo encontrava abrigo em outra arma — não a G3, mas algo mais antigo, quase arquetípico: o fado. Essa música não era apenas um refúgio, era, talvez, uma pele secundária, uma camada de veludo sobre pólvora.


Durante os anos na caserna, ele descobriu que, enquanto os companheiros passavam o copo do Morangueiro – o vinho tinto do Norte de Portugal – de mão em mão, o fado encolhia as tristezas. As notas, ao invés de fazerem os corpos dançarem, faziam-nos flutuar ao jorrar a dor pela boca. Ainda, a melodia abafava o eco das armas e, por um instante, aliviava o peso do luto pelos companheiros mortos. Tomei meu último gole de café ciente de que, em poucos minutos de conversa, o Sr. Rolo me fez entender a função do fado como ninguém. Saudades, lamentos, modas, despedidas, o mar... movem os internos e suas profundezas... eis que "a serviência do fado" se submete ao "destino."


Quando cantava, o Sr. Rolo, um homem entre a guerra e sua canção, fazia mais do que simplesmente emitir sons. Ele moldava esperanças no ar rarefeito. Sua voz não era mais que um dom, era uma ferramenta de resistência. “Eu cantava para que os outros acreditassem que iríamos voltar. Tinha que ser forte porque, ao nosso redor, a morte também era forte.” O fado o abraçava, e ele, por sua vez, abraçava os outros com a música. Esse pacto implícito entre canção e sobrevivência atravessou os anos.


O fado fora uma experiência catártica e terapêutica na guerra. Ele criava um espaço onde as dores podiam ser expressas sem vergonha, onde o peso do que foi vivido não precisava ser silenciado. Cantá-lo não apagava as memórias, mas as transformava em algo suportável. O fado agia como um ritual coletivo de cuidado, trazendo à tona o que estavam a sentir e, ao mesmo tempo, devolvendo aos homens uma centelha de humanidade que a guerra teimava em apagar.


Enfim, em meados de 1965, o Sr. Rolo retornou para casa. Sentia-se grato por estar vivo e, da mesma forma, por ter tido o fado a operar em sua vida e na dos outros combatentes. O fado era seu coração fora do peito. Foi dessa ligação íntima com a tradição – e da descoberta de que a canção era mais do que música, era companheira vital – que ele decidiu levar o prazer para o ofício. Montou uma casa de fado em Caparide, Cascais, cujas portas permanecem abertas até hoje. Perguntei-lhe se ainda cantava. Ele sorriu, misterioso, e disse que eu teria que visitar a Casa para descobrir.


Não sei se meu corpo irá tentar dançar na Casa de Fado. Não sei. Talvez nem seja essa a intenção. Mas já sei que o fado é mais do que música. Ele é o lugar onde as dores não se escondem, mas também não nos destroem. Pelo contrário.


Talvez, na Casa, eu sinta o mesmo impulso que sempre me levou a dançar ao som de Caetano ou Gil – uma música que envolve o corpo e o convida a viver a vida em sua plenitude. Quem sabe o fado, mesmo imóvel, desperte algo em mim, assim como a MPB sempre me embalou? Quem sabe...


Sábado cedo vou ao Mercado tomar o café cheio – de crema e de brasilidades, lusitano de palavras e azeitonas. Ao fim da tarde, à Casa de Fado – escutar os mistérios da tradição portuguesa em canção e destino, e ver se o fado ainda canta no peito do Sr. Rolo.



Nos vemos no Mercado!

 

 
 
 

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