A menina, o doce e a lama
- katiabonfanti
- 25 de jan. de 2022
- 6 min de leitura

Katia Bonfanti
Mariana havia avisado que a lama apagava tudo. Escutas surdas. Vozes silenciadas.
Os dias estavam cheios de expectativas. As paredes estavam pintadas de branco com detalhes delicados, leves e infantis. Desta vez, o quarto revelava um perfume feminino, exalado pelos arabescos rosados. Lia chegaria em poucos dias, ou a qualquer momento. Ana-Lia estavam em movimentos lentos enquanto a hora não chegava. As roupas pequeninas estavam cheirando carinho, bem dobradas na cômoda de laca branca. No teto do quarto nuvens de algodão com borboletinhas e pequenas aves aguardavam para conhecer Lia, a primeira herdeira dos afetos de Ana e Pedro. Ana seguia animada carregando, no corpo esguio, a piscina de líquido precioso que envolvia Lia. Era um peso agradável. Cantarolava. Em dias mais quentes suspirava sentindo os pés redondos e os dedos endurecidos, muito pelo desejo de ter nos braços seu pequenino ser amado. Era uma espera que apagaria anos de frustrações de outras esperas que não frutificaram.
***
Era 25 de janeiro de 2019. Aquela seria a última manhã de trabalho antes da chegada de Lia. Ana colocou seu vestido branco de algodão, com babados rendados e o colar com a Nossa Senhora do Bom Parto, que ganhou de sua irmã. A Nossa Senhora do Bom Parto estava por perto, tão perto que dava para sentir na pelve. Escolheu uma sandália bem confortável para aquele último dia, sem fim, com seus colegas, com sua mesa de trabalho e com a vista para o paredão coberto de grama. Ficaria no trabalho até 15h, fecharia as tarefas e se daria exclusivamente à espera de Lia. Despediu-se de Paulo recebendo um beijo de saudade que deixou Lia flutuando na sua água morna e nutritiva do ventre.
– Encontro vocês duas, aqui, mais tarde.
Lia pulou ao escutar a voz grossa .
– Sim, estaremos aqui te esperando. Hoje não tem “fim de tarde”, sairei as 15h lembra disso – disse Ana.
– Já estou contando os minutos! Paulo estava ansioso como todo pai que gesta.
Lia nadou aquela manhã, sem conseguir ir muito longe, sua piscina estava diminuída, havia água mas menos espaço para as braçadas. Passou treinando com a voz doce que costumava acalmá-la. Ana cantava e ela respondia. Lia mandava recados e Ana retribuía. As duas passaram envolvidas com aqueles sinais que só elas conheciam. Ana tomava suco e Lia saltitava. Lia esticava os braços e Ana se levantava para dar espaço. O timbre suave e materno, seu companheiro, fazia viver.
Ana fechava a manhã e como de costume dirigiu-se ao refeitório com colegas, faria com elas seu último almoço antes da maternidade. Almoçou lentamente desfrutando daqueles longos e ao mesmo tempo finitos momentos. A vista do refeitório lhe pareceu assustadora mais do que nos outros dias. Com a mão na barriga fixou os olhos no paredão que gestava o lodo e sentiu medo. Era como se a barragem também estivesse pronta a parir. Sentiu um arrepio. Dalí não nasceria luz, só escuridão. Lia, de sua bolha líquida não via a barragem, mas sentia uma onda de suspense percorrer por Ana infiltrando-se pelas camadas mais bem guardadas de seu ventre. A engenharia estudava segurança, mas, para tanta força contida, só existiam promessas e apostas.
Lia receberia os sinais, dos sabores e das incógnitas que rondavam a vida de brumas por ali. Preferia apreciar o doce e afastar-se, por instantes, das incógnitas. Movimentava a piscina, um pouquinho. Não tinha como ficar quieta com tanta informação a lhe chegar. Soluçava para comunicar que estava junto naquele sentimento estranho.
Enquanto Ana olhava a imensidão da barragem, dava à Lia o sabor dos doces, o gostinho da goiabada com queijo canastra, que herdaria nos sabores mineiros, a fim de amenizar a sensação nebulosa que insistia em se misturar à sobremesa. Envolvidas naquela viagem pelas raízes da história de seus antepassados, Ana saboreava, em pequenas bocadas, o doce bem cozido e os pedacinhos de queijo, enquanto Lia sentia chegar a melhor tradução do amor. Ana se despediria do trabalho por hora – veria Lia crescer, ficaria imersa na vida que a maternidade aflorava. A profissão, já filha crescida, poderia esperar. Cuidaria de seu bebê. O relógio marcava 13h35, Ana engolia uma pitada de despedida e algum sentimento indecifrável que fora entrecruzado por um ruído de pavor.
– Meu Deus! Minha filha!
Lia sentiu as duas mãos, afoitas, tocar sua bolha de líquidos. O toque de assombro alarmou o desconforto. Nenhum veludo restara. Os abalos dos passos de Ana e da voz em apuros trazia à Lia um sentimento novo: o terror.
Ana havia largado o pote de goiabada ao unir as sensações às certezas, localizara o que era e de onde vinha. Seus olhos faiscaram o rasgo. Revelavam as vísceras do paredão se precipitando sobre todos eles. Uma fatia gigantesca de verde gramado descia com os olhos, furiosos, de quem tomaria tudo para si. A barragem dava início ao parto da escuridão antes que ela pudesse dar à luz Lia.
Lia imersa na fragilidade sentiu seu corpo latejar ofegante. Seu ar falhava. Havia um ruído trepidante e rasteiro que engolia as vozes. Ouvia somente gritos e estrondos. Rodopiava.
O tempo de salvar vinha atrás do tempo de sobreviver: não havia tempo! Ele vinha imerso em uma lama ferrosa. A voz da incógnita alcançara a voz que vinha do Fundão: fatos!
O temido dragão, que apagou Bento Rodrigues, lançava sua lama mortífera em Brumadinho.
Mariana havia avisado!
Era tarde para escutar. O dragão da morte havia se soltado.
Brumas sobre Dinhos, assim como foi com Mariana. Ana-Lia buscavam um ponto de luz. Segundos depois, Ana sentia a força do dragão lamacento. Entregou-se. Pôs seus pés redondos e seu vestido branco rumo ao desfiladeiro sombrio. Sem chão firme para correr, rolava na avalanche da catástrofe como último desejo já afundando – salvar Lia, dar a ela a luz. Nadaria na lama de rejeitos até o seu fim. Tomada por uma exaustão que lhe tomava a consciência, salvou um fio de memória: vislumbrou sua filha nos braços e a envolveu em um manto de amor. Despediu-se. Escureceu no abraço. Nossa Senhora do Bom Parto acalentou. O ar suscitou sua escassez à Lia, que sufocada, comprimiu-se.
Lia, sentia um aperto escuro, pesado e sufoco .
Seria isto o nascimento?
Vivia o limite entre nascer e morrer? Tentou empurrar com os pezinhos...Esticou-se. Em espasmos, empurrou. A voz não voltou. A mão não acariciou. A porta não se abriu. O ar acabou!
De mãos dadas com a Nossa Senhora, sem forças, sem luz, sem sonhos, Ana e Lia sucumbiram à montanha de rejeitos mal cheirosos. O som abafado, terrífico, zuniu o seu silêncio mortal.
Ana-Lia, Lia-Ana e todos os outros arrastados por uma mesma Vale.
Mariana havia avisado! A voz vinda do Fundão espalhava-se sobre o Córrego do Feijão.
Lia fora enterrada antes de vir à luz. Habitaria um mar de rejeitos sem perspectivas de desabrochar. O mar ferroso, desvalido e amargo, sustava os futuros de centenas de sonhadores. Fora-se o Doce em um Vale de sombras, um Rio Amargo, sem transparências. A opacidade alastrante espalharia turbidez para caminhos longínquos. São Francisco sentiria as dores em suas águas sagradas. A profecia se realizava. O custo da voz não escutada se propagaria natureza a fora. Comunidades inteiras não se recuperariam...indígenas sofreriam. O registro de morte ofertada pela Vale impactaria as novas gerações apagando frações de vida e sonhos.
Mariana havia avisado!
Não há Doce nas águas turvas de uma Vale do Rio de brumas.
Em quem confiar? Nebulosidades tomam as canetas e os versos. Os sonhadores, moradores, trabalhadores, pagam a conta. Quer coisa mais dura? A extração dos recurso (vitais) de todos, nas mãos de alguns. Amargos vales.
A Vale, assombrosa, arrastou no corredor de lama quem vivia, quem se doava e quem só passava em gozo. Arrasou. Escorreu sua massa pegajosa da morte e da devastação pelo desfiladeiro, verdejante das aspirações. O ruído se espalhou silenciando duzentas e setenta vozes...
Quem se importa com as vozes que ainda clamam?!
Paulo virou noites aos gritos. Ana não responde, Lia nunca nasceu.
Paulo mudou-se para a beira da lama com todos os outros que também queriam encontrar os seus. Seus corações, vivos, enterravam-se na mortícia-lama.
Mariana... Brumadinho ecoou o grito. Repetiu o Fundão das almas.
Anas, Lias, Paulos, Sandras, Josés: Mariana, Córrego do Feijão – Dinho em Brumas.
Lia morrera ao mesmo tempo em que nascia para o mundo na sua morte. E, ao morrer, desaparecia para sempre, como todos os seres vivos e não vivos que se foram e outros que submergem na lama da injustiça e da impunidade.
Fonte da imagem: g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2019/01/25/barragem-da-vale-se-rompe-em-brumadinho-mg-fotos.ghtml

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