A Gatinha e o Rapaz de terno
- katiabonfanti
- 23 de set. de 2021
- 4 min de leitura
A gatinha decide sair para navegar. Fazia um dia fresco e convidativo para se enlaçar com o lugar. Nada havia mais desejado do que o rio a encontrar. A água, para a Gatinha, era algo a superar. Caminhou com o vento soprando nos seus olhos de receio e zoando nas suas orelhas, sem nada conseguir escutar. O trepidar dos próprios passos se perdiam ao som dos carros no asfalto fervilhante. A Gatinha, mesmo assustada, no rio queria se experimentar. Os pensamentos aflitos iriam por lá desaguar. Caminhava pela sua solidão e o devaneio a fazia redemoinhar. Atravessou a rua com o coração a desabar. Dobrou a esquina e caminhou rente à calçada, para melhor apreciar. Estava quente, mas sentia o resfrio no estômago aumentar. Os pensamentos estavam acelerados, surgiam e sumiam, sem rumo e sem se atenuarem. Mais uns passos à frente, e a Gatinha sentiu um arrepio rondar a sua cabeça. Era hora de voltar: suas pernas estavam fracas e temia desmaiar. O rio ficaria para outro dia se ainda tivesse coragem de visitar. O mais caro era sempre mergulhar na profundeza do rio. Nisso, a sua vida revirava. Desolada, pelo mau agouro a chegar, a Gatinha retornou para sua casa, decidida que lá iria ficar. Entrou e foi aplacar o arrepio. Sentou-se ao lado da janela infinita e deixou uma única lágrima escapar. Observou a rua que seguia barulhando. Cada um no seu andar. Ver a rua da li era mais seguro. Ficaria para sempre no cantinho da janela a analisar. A Gatinha tinha escutado muito sobre sorte e azar. Julgava que acontecimentos poderiam maltratar. Não tivesse nada a provar a ninguém. As pessoas preferiam pensar que era a sorte a encanta-la. Entre ser sorte ou azar, ela preferiu calar e atenta observar. Levou seus olhos para rua, mas do vidro não passaram. Dali, nenhum arrepio atrevido poderia arrebatar seus longos pelos dourados, nem mesmo os seus devaneios ancorar. O tempo passou, a metamorfose rascunhava o feminino. A tarde caiu e a gatinha permanecia passeando pela sua vida de sorte e de azar. Tinha tanta revisão para fazer que quiçá passasse a noite desvanecida, encostada no vidro da janela a delirar. Os cachorros latiam com a fome de jantar, as pessoas apressavam o passo com vontade de chegar, e o ônibus circulava, cumprindo o último horário para não mais retornar. A gatinha não se moveu da janela por pesar e, também, por assim o desejar. Só passeava com os olhos, misturada às visões da rua a contentar. O chão alinhava com seu lugar. Nem sentiu por quanto tempo passeou só no pensar. Sorrindo, veio o vento lhe soprar a figura de um Rapaz. Sorte ou azar – Pensou a Gatinha. O Rapaz ficou ali, do outro lado do vidro a cintilar. Olhou para ela como se soubesse de seu azar. Refletiu nela sua sorte a arrebatar. A gatinha não soube o que fazer, então congelou. Nem piscou os seus olhos a ressecar. O azar poderia surgir e fazê-la não avista-lo e perde-lo. O ar lhe faltou. Percebeu não respirar no tempo, com medo de perder o tempo e extraviar o Rapaz de terno que tanto lhe agradou. O Rapaz acenou. Um aceno terno a agracia-la. A gatinha julgou que era mesmo sorte, pois durou pouco. Foi como aprendeu a pensar. A sorte é só um encontro fugaz. Dura só o que tem que durar. O Rapaz andou o mundo, e a gatinha ficou na janela à espera pela sua sorte maravilhar. Revestida de ternura, logo ela poderia chegar. Debruçada na espera, a gatinha decidiu na janela morar – seu lugar de voar e de sorte espelhar. Da janela, queria tremer ao sentir o terno Rapaz. De sorte, sua alma tocar. Dias se passaram até que o Rapaz de terno tornasse a rua a rodar. Ele estava ainda mais terno e a fez trepidar. A gatinha ronronou sua sorte, que, por azar, logo chegou a findar. Pois, nos outros dias, o Rapaz de terno não estava terno e não a notou. O que foi que mudou? O que mudou foi a sorte do Rapaz. Ele havia encontrado com tanta sorte que nada mais lhe faltou. Ele nunca mais a enxergou. A gatinha ronronou seu pesar. Ela acreditou que a ternura entrava na vida quando casava com a sorte. Sem o terno Rapaz de terno ela não voltaria a trepidar. Sentiu sua sorte abalar. Chorou sem deixar a lágrima cair, não queria mais perder nada, nem perturbar seu olhar. Depois de o terno Rapaz desaparecer na sua própria sorte, a gatinha trocou a janela por outro lugar. Aprendeu a não esperar e se desviar dos arrepios. Entendeu o que era de fato amar e pôde a sua sorte recuperar. O mundo voltou a ser mundo: o rio passou a ser só para olhar, a rua poderia dormir a qualquer luar, o ônibus, ela poderia perder a qualquer tempo. A vida só tinha a ganhar. Sentiu que o terno Rapaz poderia não ser raro e, sem amor à vida, era um bem caro. E o Rapaz de terno? Ouviu dizer que do rio ele chegava ao mar, e que navegava incessante sua vida para com a sorte casar. A Gatinha trilhou as ruas de volta a pensar. Dobrou esquinas, desceu becos. Sem nunca desanimar. Deixou-se levar pelo barbante do tempo, embalando-se para frente e para trás. O tempo fez seus medos espantar. Embalou a dor da falta do terno Rapaz, mas nada poderia mudar. Um dia, não sei se de sorte ou azar, a Gatinha entrou no rio para se molhar. Foi aí que viu chegar o terno Rapaz na sua canoa a remar. Já era tempo daquele tempo voltar e a sorte vir para ficar. A ternura segurou-lhe a mão. Ela sentiu o coração se enlevar. Valeram as sete vidas gastar! A Gatinha e o terno Rapaz, sem terno, conseguiram a aflição transformar. Agora, balançam no barbante do tempo com a alma a enamorar.
Sobre a autora:
Katia Bonfanti
Diverte-se com as palavras, as cores, os sabores e os perfumes. Faz da escrita o modo mais saboroso de comunicar os afetos. Adora Psicologia e café!

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