top of page

A Arte de uma Mulher Relicário

Atualizado: 12 de ago. de 2025


Katia Bonfanti, psicóloga e escritora

 

SeMpre que a avistava, sentia como se tantas faces habitassem uma única mulher. Havia algo de enigma no modo como se movia, como se sua presença carregasse histórias secretas, fragmentos de vidas que minha curiosidade literária insistia em decifrar. Um dia, quem sabe.

Naquela ocasião, ela sorria, e seu batom, em sintonia com a peça de pluma envolta no pescoço, parecia um detalhe intencionalmente desenhado para compor a cena. Conversava atentamente com outra mulher não menos intrigante, que vestia um sobretudo de lã vermelho, perfeitamente alinhado ao chapéu de feltro da mesma cor. A conversa entre elas parecia ter calor próprio, um brilho intenso como a cor que as vestia. Amizade, cumplicidade...

Eu diria que, se estivesse naquela roda, poderia passar o dia inteiro sem perceber as horas. Mas permaneci à margem, apenas observando. E, ao final, perdi-me não apenas na contemplação, mas na busca silenciosa pelo "chapéu de chuva" da dama do chapéu de feltro.

O inverno cedeu espaço à primavera, e foi então que uma poesia pousou sobre a mesa. É sempre assim: quando o olhar se demora sobre algo, o mundo se revela em camadas, e o que parecia sempre o mesmo mostra-se infinitamente diverso.

E eis que, eu, sem o sobretudo nem o chapéu de feltro, fiz par com a sua presença, e com toda a força de narrativa que transborda dela. Descobri, então, que aquela mulher não era apenas um rosto interessante na multidão — era um compêndio de histórias, um livro ainda por publicar.

"Minha vida daria um livro. Aliás, já escrevi um... mas nunca publiquei", confidenciou-me, com um brilho discreto nos olhos e um aperto delicado nos meus braços. E foi assim que as páginas de sua existência começaram a se desdobrar diante de mim. Aquela senhora vívida, de pequena estatura abria-me uma vastidão que só poderia habitar outros corpos dentro de si.


Falou-me de Moçambique, onde, ao lado do marido, montara uma hospedaria. O próprio requinte feito hospedagem. Um negócio que precisou abandonar, junto com as joias da família e tantos objetos valiosos, quando foram surpreendidos pelos ventos do 25 de abril de 1974. Fugiram às pressas para a África do Sul, sem sequer ter tempo de ir ao banco reaver os valores e heranças maternas.

Na nova terra, começaram do zero. O marido, bom negociante, logo ascendeu em uma imobiliária, e não tardou para que reconstruíssem a vida. O hotel de sete andares surgiu como um novo império, um testemunho do que haviam superado. Os corredores com tapetes espessos, a cristaleira reluzindo com taças delicadas, os salões iluminados por lustres imponentes. Os hóspedes iam e vinham, e eles, enfim, respiravam o alívio da segurança.

Mas a vida, sempre dinâmica, revelou-lhes outra face das sociedades e seus desdobramentos. Um dia, veio o golpe.


"Estamos sem nada. Nem mesmo o carro está em nosso nome... Perdemos tudo", confessou-lhe o marido, desolado. A frase quebrou seu sonho como uma taça de cristal que se espatifa antes do último gole de vinho.


Sem forças para recomeçar ali, decidiram regressar a Portugal, refazer a vida em terras que, um dia, já foram casa. E foi no reencontro com o passado que ela encontrou também um caminho para o futuro. Sem pensar em outra atividade que não fosse aquiLo que sempre lhe encantara — talvez um modo de recuperar tantas peças perdidas, ou quem sabe elaborar os lutos impressos nos objetos que a Revolução tratou de engolir —, criou um propósito. Tornou-se uma antiquária.

Foi assim que, em Cascais, no antigo Vila Cascais, a vida voltou a encontrar um ritmo de tranquilidade. Um espaço amplo, onde peças antigas eram "encontradas", vendidas e ressignificadas em algum novo lar. Aprendeu a dar passagem para o passado, deixar ir as histórias e as memórias...

Mas a máxima se confirma: a única certeza é a impermanência. Quando parecia que enfim havia alcançado uma estabilidade, a vida lhe cobrou outra conta amarga. Perdeu o marido. E, com a perda, veio uma descoberta ainda mais brutal: uma dívida que não era sua, mas que agora estava sob sua responsabilidade.

O choque foi duplo. De repente, viu-se sem o companheiro de vida e sem os alicerces financeiros que julgava ter reconstruído. Mas para quem carrega a fibra de quem já renasceu tantas vezes, nenhum golpe é forte o bastante para arrancar-lhe o sorriso ou a coragem de recomeçar.

O trabalho estava aquecido, e ela jurou que daria passos à frente enquanto tivesse sangue pulsando em suas veias. Com o tempo, a resiliência e o apoio dos filhos, reergueu-se. As finanças foram restabelecidas, na medida do possível. E o que mais importava era que seguia em movimento e com ideias de futuro. Ver-se no amanhã faz toda a diferença, entre seguir ou sucumbir.

À beira dos 90 anos, aquela senhora requintada sentia-se satisfeita com o que havia conquistado depois de tantas quedas. Mas a vida, implacável e sempre disposta a testar os fortes, reservava-lhe mais um desafio.

Numa bela manhã, recebeu a notícia que novamente a puxaria para o chão: o shopping Vila Cascais, onde esteve décadas a negociar peças de arte, seria fechado.

Maria de Lourdes, essa mulher que se reerguera tantas vezes, agora via seu espaço ameaçado. Era como desfazer, mais uma vez, não apenas um trabalho, mas parte de sua própria identidade. Estaria ela fadada ao azar? Sorte e azar são conceitos frágeis diante de quem carrega a experiência dos recomeços. Maria de Lourdes não é feita de sorte, nem de azar. É feita de coragem.

No Mercado da Vila de Cascais, sua presença é macia. Não há quem passe sem sentir sua leveza. Observadora, notou meu anel e, com um gesto quase imperceptível, fez a madrepérola reluzir. Talvez a beleza só se complete quando encontra um olhar à sua altura. Ela sabe encontrar a raridade nas coisas cotidianas.

Anda de cá para lá, apresentando suas peças como quem apresenta relíquias do tempo, fragmentos de histórias, marcas de vidas passadas. Pequenas flores, alinhavos, nós e bordados da sua própria vivência.


Bem acompanhada pelo seu neto, mostra o quanto conhece a trajetória das artes que compõem sua banca, toca-as com reverência, estuda as ranhuras, os detalhes ocultos, as inscrições quase apagadas. Sabe o peso de uma prataria antiga, distingue sua origem, quase ouve os segredos de quem a seguraram antes.


Maria de Lourdes não passa em branco pela vida, nem deixa de ver as belezas nos símbolos do passado. Não, mesmo! E sua resiliência se deve ao modo como recupera suas forças, o modo como reinveste nas suas versões de ser mulher todos os dias. Mulher que “escreve” sua história, porque reconhece as suas valências, que a torna invencível nos momentos de ruptura.


Ela é sempre nova, sempre esperançosa e radiante vestida da cabeça aos pés com as suas nove décadas de vida como se fossem vestimentas vaporosas da juventude. Talvez porque quem já renasceu das cinzas tantas vezes e ainda mantém um sorriso luminoso no rosto, só pode ser feita de algo maior que o tempo. Quanta inspiração para as mulheres de todos os tempos,

 Sra. Maria de Lourdes!

Jurei escrever pouco, mas não cumpri. Sua história não cabe em poucas linhas. Ela merece mais do que um livro – merece ser eternizada.








 



Comentários


bottom of page